O Quão Revolucionário Pode Ser Um Beijo
Fonte: Site da produtora “Misia Films”
Ontem foi o dia do Oscar. Infelizmente, o candidato brasileiro O Agente Secreto saiu de mãos vazias. Porém, hoje, eu gostaria de comentar sobre o filme Duas Pessoas Trocando Saliva, do original francês Deux Personnes Échangeant de la Salive, vencedor da categoria de melhor curta-metragem. Essa é uma das competições no Oscar que sempre são esquecidas no momento das discussões e apostas, e eu acredito que, a partir de um formato mais curto, existe a possibilidade de uma potência emocional a partir da narrativa até mesmo maior que no caso dos longa-metragens.
Esse ano, o filme francês com o título meio enigmático que eu citei anteriormente dividiu a estatueta com outro curta, The Singers, uma das poucas vezes em que um empate aconteceu na história da cerimônia. A narrativa se passa em uma realidade em que o beijo é proibido. Somente por esse fato, eu já acho esse um cenário terrível de se viver, aliado a isto, o mecanismo de transação monetária também é diferente do que estamos acostumados. Ao invés de trocar um produto por dinheiro, as pessoas pagam recebendo tapas na cara. Então, por exemplo, se eu vou em uma loja e quero comprar um par de sapatos, eu devo oferecer o meu rosto à atendente da loja e ela me dará a quantidade de tapas suficiente para pagar pelo calçado.
Na coluna da semana passada, eu defendi a tese de que artistas devem criar uma obra que seja criativa e que seja fruto das suas inquietações, exemplificado pela interpretação que a diretora Emerald Fennell fez para o clássico livro O Morro dos Ventos Uivantes. No caso do curta francês, não se trata de uma adaptação de algum outro material, mas sim uma visão criativa original. Apesar de parecer uma adaptação metafórica da realidade à qual estamos acostumados…
Explicado a forma como o mundo funciona no filme, o enredo gira em torno de duas personagens. Malaise é uma menina na casa dos vinte anos que trabalha como atendente em uma loja de acessórios e cosméticos. Durante o seu primeiro dia de trabalho, ela se depara com a Angine, moça da alta classe francesa que frequenta assiduamente o estabelecimento. Em um curto período de tempo, ambas as personagens afeiçoam-se uma pela outra, gerando certa inveja da colega de trabalho de Malaise, a Petulante, que perdeu o posto como vendedora recorrente da moça rica.
O filme é repleto de reviravoltas e até de certa comicidade, porém não quero revelar mais sobre a trama, pois eu acredito que é uma experiência que vale a pena ter sem qualquer conhecimento prévio.
Aqui, todavia, eu consigo explicar o ponto central a partir do básico da premissa da história. Apesar de vivermos em um mundo onde o beijo é aceitável e não precisamos deixar marcas na pele como consequência de uma compra, o mundo proposto pelo diretor Alexandre Singh e pela diretora Natalie Musteata não se difere muito do universo capitalista em que estamos inseridos.
Angine, em todas as cenas do filme, aparece com a face direita do seu rosto marcada. Ou seja, a personagem é uma consumidora compulsória e perpetua o ato de comprar para saciar uma necessidade que nada tem a ver com a falta daqueles objetos em específico em sua vida. As cenas da personagem em sua própria casa mostram um sujeito descaracterizado, quase como se aquele não fosse o seu ambiente natural. Com a chegada de Malaise em sua vida, Angine passa a ansiar pelo momento das compras, não mais pelo motivo da mera aquisição de produtos, e sim pois enxerga na vendedora uma nova faceta de como a vida poderia ser se o carinho fosse permitido.
No mundo real, também estamos reféns de saciar nossas inquietações a partir de aquisições supérfluas, ou às vezes nem tão supérfluas assim, apenas com a intenção de adquirir o básico para sobreviver, exercendo uma posição em um regime trabalhista legalizado que explora a mão de obra. Portanto, estamos reféns de seguir algumas regras de comportamentos que podem ser contra-instintivas pelo simples fato de que podemos sofrer as consequências de sermos julgados, malditos e isolados, sem mencionar o fato de aumentar as nossas chances de ser vítimas de violências…
Por mais que não exista legislação que proíba o beijo, as pessoas estão cada vez beijando menos. Segundo dados publicados pela BBC em 2019, a geração Z, pessoas nascidas entre 1995 e 2010, estaria fazendo menos sexo em comparação às pessoas da geração anterior. A pesquisa aponta a grande transformação cultural tecnológica como um fator resultante para explicar a tendência; com o uso cada vez mais de telas, os jovens não estão preocupados em manter uma vida social ativa, até porque as maneiras de sociabilidade mudaram drasticamente com a ascensão da internet. As consequências disso são relações sociais cada vez mais transitórias e sem a manifestação de afeto.
Apesar deste fato, o beijo é um ato de vulnerabilidade. A falsa realidade de que a nossa vida está intrinsecamente ligada ao uso das telas afirma a ideia de que as nossas relações também são fruto do uso das redes sociais. E nas redes sociais, é fácil dar um block naquela pessoa que eu não gosto, diferente da realidade concreta, da qual eu teria que conviver e procurar o melhor jeito de lidar com ela, e até mesmo acabar me afeiçoando por aquela pessoa. Esse fato revela o quanto estamos despreparados para lidar com a sensibilidade que é preciso para entender a realidade do outro.
As redes sociais nada mais são do que um produto do capitalismo. É a partir delas que o algoritmo entende seus desejos e interesses, projetando em vídeos e publicações a ideia de que a sua vida ainda não é como poderia ser… E recomenda produtos, livros, cursos, oportunidades, ou até mesmo perfis de pessoas influenciadoras, que teoricamente têm as mesmas condições que você, o que te deixa perguntando-se: por que eu ainda não sou igual a ela?
Enfim, acho que o ponto central de Duas Pessoas Trocando Saliva é bastante complexo a partir de uma premissa simples. Estamos carentes de afeto e receosos de receber afeto na mesma medida. É sim um problema estrutural capitalista, que nos convence de que poderíamos ser melhores do que realmente somos, então por que ser pessoa merecedora de afeto?
Nada mais na vida nos une do que saber que você é querido e bem quisto por quem você também quer e bem vê. Ou seja, poderíamos viver bem mais afetuosos uns com os outros do que vivemos hoje. Para falar a verdade, eu receio que estamos bem mais próximos da realidade do curta vencedor do Oscar do que de fato corajosos o suficiente para dar um beijo com honestidade - ou nos forçaram a acreditar que só poderíamos beijar com vontade se fosse no escuro.








