Arte Contemporânea e suas poéticas

Como as obras de arte contemporânea podem suscitar ideias inerentes à sua forma de produção

Obra Double Mona Lisa, de Vik Muniz. Fonte: Cultura Genial

Arte contemporânea é uma linguagem do mundo das artes que ainda causa estranhamento. Performance, instalação, site specific, body art, graffiti e happening são algumas das linguagens possíveis de serem categorizadas enquanto pertencentes à temporalidade contemporânea da história da arte.

A performance utiliza ação, voz, cheiro ou animais como suporte para a realização da obra, assim como possibilita o uso do corpo como instrumento de mensagem, assim como ocorre com a body art e o happening. Já a instalação é composta por objetos diversos e busca criar uma dimensão tridimensional em contraponto com o espaço em que é apresentado, assim como o site specific, sendo que a diferença primordial entre as linguagens é que, nesta última, a obra é elaborada para um único local em específico. O graffiti é uma linguagem de criação de imagens e símbolos a partir de tinta spray; normalmente as obras em graffiti são vistas em paredes e nas ruas da cidade. Essas são algumas das possibilidades de representação da arte contemporânea.

Para os historiadores da área, as novas produções de linguagens como pinturas e esculturas também são consideradas obras contemporâneas. Isso acontece porque o que muda, analisando a partir de um viés historiográfico, é a intencionalidade das pessoas artistas. Enquanto nas temporalidades clássicas e modernas havia um objetivo de alcançar perfeitas proporções e atingir prestígio social e acadêmico, as novas obras têm como objetivo questionar o sistema social e não necessariamente estarem inseridas em acervo ou exposição em museus.

É claro, antes da década de 70, momento de ascensão da arte contemporânea, existiam artistas que tensionavam a forma comum de produção. O próprio Pablo Picasso, em suas pinturas cubistas, utilizava-se do processo de colagens para integrar a visualidade dos seus quadros. Essa mistura de linguagens para a criação de uma única obra não era comum antes do século XX e até meados da década de 60. Ainda assim, não ultrapassava um limiar que mais para a frente da linha do tempo, foi questionado e colocou em perspectiva o valor e o papel desempenhado pela arte.

Para contextualizar, o cubismo é uma vanguarda predominantemente composta por artistas europeus que buscava representar a realidade a partir de figuras abstratas, enquanto que a técnica de colagem caracteriza-se a partir da mistura de objetos, recortados e rearranjados para criar uma nova formatação de obra de arte.

São trabalhos como A Natureza Morta com Assento de Cadeira (1912), de Picasso, pintura que visualiza uma cena de café da manhã e que utiliza, dentre os materiais mais comuns de um quadro feito com tinta, um recorte de cadeira de vime colado na superfície da tela. Essa é considerada uma das primeiras colagens da arte moderna. São obras como essa que pavimentam o caminho para artistas que desconstroem o senso comum, e até mesmo acadêmico, sobre o que é arte.

A Fonte, assinada por R. Mutt, pseudônimo descoberto anos mais tarde como sendo uma das assinaturas de Marcel Duchamp, é um mictório de cabeça para baixo e submetido como obra de arte no Grand Central Palace. Sim, o artista comprou a peça em cerâmica e enviou para a Sociedade de Artistas Independentes de Nova York, em 1917, e solicitou que a obra fosse exposta sem qualquer diferenciação com outros mictórios da mesma marca.

Para a época, a ideia de Duchamp foi quase inteiramente rechaçada. Tanto é que a obra foi exposta quase que escondida, afastada dos demais trabalhos apresentados pela Sociedade. A ideia do grupo era priorizar a exposição de novos artistas, sem muito critério quanto aos processos e ideias levantadas pelas obras expostas; portanto, rejeitar A Fonte iria contra a proposta almejada pela curadoria.

Foi assim que os ready-mades surgiram. Uma linguagem artística que propõe a exposição de objetos prontos, na maioria das vezes industrializados, em um contexto diferente daquele em que foi planejado para existir. Como dito no início da coluna, é um universo simbólico que ainda causa estranhamento. Não é incomum encontrar comentários negativos a respeito de quaisquer das linguagens contemporâneas das artes. O massa é que elas são criadas exatamente com esse intuito: de questionar o modo como a arte é produzida, de indagar o motivo da sua existência, incomodar a relação vigente entre o que é socialmente digno e indigno de ser exposto, tensionar o que vale ser dito e o que é proibido…

Toda pessoa artista possui uma intencionalidade por trás das suas produções artísticas, uma mensagem ou tentativa de propor reflexão sobre alguma ideia. Os pesquisadores da área propõem, assim, o conceito de poética. Argumenta-se que existe uma poética suscitada por qualquer obra de arte e parte-se do pressuposto de que a poética também envolve a interpretação do observador acerca daquilo que ele observa.

No caso de A Fonte, a intenção de suscitar inquietação e indignação por parte da pessoa que observa o mictório em sala de museu faz parte da poética da obra, assegurando o argumento e tentativa de questionamento sobre o sistema das artes como intenção de Duchamp. 

A linguagem mais desafiadora, eu diria, é a performance. Em se tratando das inúmeras possibilidades de realização, utilizando como suporte o corpo, a ação, e quaisquer estímulos sensoriais, a linguagem artística enfrenta um desafio ao estar inserida nos museus. Como se arquiva um corpo? É possível expor uma performance? Nesse caso, existem protocolos específicos da área da museologia contemporânea que abordam as maneiras mais eficientes de preservar essas obras, levando em consideração o seu caráter efêmero, transitório e, por vezes, fadadas a existirem por tempo limitado.

Em Salvador, no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA), uma retrospectiva da carreira de Vik Muniz está atualmente sendo exibida. O multiartista paulista é um dos nomes da arte contemporânea brasileira que manuseia objetos inusitados para criar as imagens que são exibidas nas salas do museu. Por exemplo, uma das suas obras reimagina a famosa imagem de Monalisa, aquela exposta no museu do Louvre, em Paris, e pintada por Leonardo da Vinci. No caso de Muniz, a composição de Double Mona Lisa, título da obra, não é feita com tinta, e sim com pasta de amendoim e geleia.

De fato, preservar obras com material tão perecível quanto o caso da Monalisa exposta no MAC_BA é um desafio para os profissionais da museologia. Por vezes, essas obras passam por processos de refeituras ao longo do período em que estão expostas, trocando as versões da obra a cada determinado período de tempo. O que normalmente também acontece, quando o trabalho em questão passa a integrar o acervo do museu, é o processo de documentação da obra, bem como a avaliação e integração dos seus protocolos de realização a cada vez que for necessário que sejam refeitos. Ou seja, a primeira obra, em si, deixa de existir. O que existe continuamente é a ideia da obra.

E é assim que a arte contemporânea nasce… Não é pela intenção de durar pela maior quantidade de tempo possível (até porque a vida, em si, também é efêmera e transitória) ou ser apenas ato/objeto de apreço estético. As linguagens contemporâneas da arte nascem com o intuito de disseminar ideias e suscitar reflexões e emoções que convidam seus observadores a vivenciarem, sob um mesmo plano, a poética proposta pelas autoras artistas.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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