O samba que derreteu o gelo: o pódio de Lucas Pinheiro Braathen

O sol de inverno em Cortina d'Ampezzo já começava a se esconder atrás das agulhas de pedra das Dolomitas, mas a temperatura na praça das medalhas parecia subir a cada segundo. O locutor anunciou, com o sotaque carregado da hospitalidade italiana: "Medaglia d'oro... dal Brasile... Lucas Pinheiro Braathen!"

Houve um segundo de silêncio atônito da plateia europeia, logo rompido por um rugido verde e amarelo. Lucas não caminhou até o degrau mais alto; ele desfilou. Com as unhas pintadas — um toque de rebeldia que se tornou sua marca registrada — e o sorriso largo de quem sabe que acabou de mudar a história de um continente, ele saltou para o topo do pódio.

Então, o hino começou.

As primeiras notas de Joaquim Osório Duque-Estrada ecoaram entre os picos nevados. Para quem assistia de casa, no calor do verão brasileiro, era uma imagem surreal: um homem com roupas térmicas de alta tecnologia, cercado por neve, chorando ao som de "Ouviram do Ipiranga". Lucas fechou os olhos. Naquele momento, ele não era apenas o prodígio técnico criado nas pistas norueguesas; ele era o menino que passava as férias em São Paulo, o jovem que escolheu a bandeira da alegria em vez da bandeira da conveniência.

Quando a bandeira brasileira subiu, ladeada pelas potências tradicionais do esqui, o contraste era poético. O verde das nossas florestas finalmente dominava o branco absoluto do inverno. Lucas cantou cada estrofe com a alma. Ao final, em vez da reverência rígida dos manuais esportivos, ele soltou um grito de desabafo e apontou para o peito, onde o escudo do Brasil brilhava tanto quanto o ouro em seu pescoço.

O mundo do esqui, muitas vezes visto como um clube fechado e aristocrático, acabava de ser invadido pela "ginga". Ali, naquele pódio, Lucas Pinheiro Braathen provou que o gelo não é frio quando se tem sangue brasileiro correndo nas veias. O "País do Futebol" agora tinha um Rei na neve. E a coroa era de ouro puro.


Júnior Patente

Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão de Pessoas com Deficiência.
Instagram: @junior_patente

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