E o bloquinho?
Fonte: Bloquinho Algazarra, Vitória da Conquista, 2018. Foto: Rafael Flores
Fevereiro no Brasil, época do ano em que o país efervesce, ou pelo menos se prepara, para as comemorações e festas de carnaval. Seja em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, quando se abrem as redes sociais ou as redes de notícias, só se fala na maior festa de rua do mundo. Para os moradores de Vitória da Conquista, o que resta é acompanhar a folia dos outros pela tela do celular ou da televisão.
2026 marca o sexto ano consecutivo em que não haverá carnaval de rua ou quaisquer festas realizadas pela prefeitura. Ao invés disso, há a publicização de uma campanha em prol do São João. Lê-se em redes sociais e em outdoors divulgados pela gestão conquistense: “Todo mundo atrás do trio elétrico, e eu pensando em outro trio”. O “outro trio” em questão é a junção dos instrumentos musicais triângulo, zabumba e sanfona, característicos do forró predominante nas comemorações juninas.
A campanha é falha por 2 motivos, ao meu ver. Primeiramente, ela escancara que existe um mundo fora de Vitória da Conquista que está participando, em coletividade, de uma festa em que o cidadão conquistense não foi convidado. “Todo mundo atrás do trio elétrico, e eu [...]” reforça o meu argumento.
Outro motivo pelo qual eu vejo como falha da campanha publicitária é o fato de que, implicitamente, existe a escolha de sustentar a comemoração de uma festa típica em detrimento de outra. É como se não pudesse ocorrer as duas festividades na cidade, é uma escolha entre o carnaval ou o São João. A veiculação dessas mídias, em consonância com o período do carnaval, mostra a tentativa da prefeitura de assumir a falta de comprometimento com o tradicional carnaval conquistense, avisando, quase como uma maneira de suavizar a falta. Reiterando, assim, que a boa festa é a festa que certamente ainda vai acontecer…
Porém, uma não deveria ocorrer em detrimento da outra. Para motivos de comparação, o Arraiá da Conquista trouxe grandes nomes do forró e piseiro brasileiro como João Gomes, Tiago Aquino, Mastruz com Leite e Marcinho Sensação. Já para o carnaval de 2026, nem ao menos uma festa com atrações locais que seja… A época dos festejos de carnaval seria uma boa oportunidade de movimentar a economia local, gerar novos postos de trabalho, engajar coletivos culturais e artistas locais e reconstruir uma tradição regional de festividade carnavalesca.
É claro, não é tão simples assim recriar e organizar uma festa de rua da magnitude que um carnaval merece. Todavia, se a prefeitura consegue viabilizar a apresentação de João Gomes, um dos maiores nomes do piseiro atualmente, para a festa de São João, sem sombra de dúvidas consegue organizar blocos e atrações locais em fevereiro também. As portarias servem para isso, assim como a secretaria da cultura e a publicação de editais de fomento e manutenção de festas populares…
Para completo entendimento do panorama da cidade, no dia 7 de fevereiro ocorreu o Carnaval da Família no bairro Patagônia. Na ocasião, a realização do evento, que contou com bandas ao vivo, marchinhas e brinquedos infantis, só foi possível graças à organização de membros da sociedade civil em conjunto com a movimentação do governo do estado da Bahia.
Em anos anteriores, coletivos independentes também realizaram bloquinhos e cortejos nesse período. Desde 2018, O Algazarra têm sido um suspiro para a população conquistense, permitindo que a festa permeie também as ruas do centro da cidade, com marchinhas, cortejo e paredão. Porém, em 2026, o grupo liderado por Ana Paula Marques e Rafael Flores anunciou a não realização do evento.
Apesar de serem decretados enquanto ponto de cultura municipal, o grupo afirma via publicação na rede social Instagram que: “A partir do cansaço que a produção gera, sentimos que acabamos deixando de lado uma coisa muito importante para nós: nossa criatividade.” O desabafo dos produtores do bloquinho aponta um problema em ascensão que entrelaça com a falta de investimento da prefeitura, o sucateamento da produção cultural…
Indiscutivelmente, não existe suporte para a existência de práticas culturais em Vitória da Conquista, em suas multiplicidades e formas. É claro, existe o Arraiá da Conquista, ou o pôr do sol no Cristo de Mário Cravo, mas será que devemos nos contentar com isso? A cultura conquistense pulsa, mas pulsa pela luta de quem produz cultura de forma independente. O Festival Suíça Baiana nasce a partir do coletivo de mesmo nome, com o objetivo de expandir o acesso à música ao vivo de artistas independentes; ou mesmo os coletivos Apodío e Poc, grupos de teatro que realizam peças e oficinas em espaços culturais diversos da cidade. Esses são alguns exemplos de produção cultural que são recorrentes e viabilizados a partir de incentivos do governo do estado.
Algumas colunas atrás, eu discuti a falta que o Cine Madrigal faz para a cena cultural de Conquista, e reitero novamente meu descontentamento. A cidade de Glauber Rocha não possui uma estrutura de exibição de filmes, muito menos um festival de filmes regionais de grande ou média estrutura e apelo às massas é um fato lamentável. Visto ainda que a casa do ilustre cineasta consta como propriedade da prefeitura, as queixas sobre a utilização do imóvel parecem distantes dos ouvidos da gestão municipal. Nesse meio tempo, egressos do curso de cinema da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) estão recebendo prêmios e aplausos em outras cidades pelos curtas-metragens produzidos aqui, na jóia do sertão baiano…
Enfim, a falta de eventos e festividades carnavalescas na cidade de Conquista destaca a desimportância que as práticas e ritos culturais possuem aos olhos dos gestores. Não é possível competir com o carnaval de Salvador, portanto, não temos carnaval. Como é possível competir com o São João da capital, aí a realização de 4 dias de evento e atrações de cachê milionário começam a fazer sentido… O investimento começa a valer a pena, afinal de contas...









