DIvas Pop e Músicas de carnaval
![]()
Anitta e Melody nos Ensaios da Anitta em Fortaleza. Fonte: BrazilNews
Há uns dias, eu estava na casa de um amigo e estávamos discutindo sobre música e divas pop. Enquanto eu defendia que Gal Costa e Maria Bethânia poderiam ser consideradas divas pop dos anos 80, ele se contraargumentava, dizendo que as cantoras nada se pareciam com Anitta, por exemplo, que é uma clara figura popular desde o seu surgimento na mídia por volta de 2010, e também usufruiu o título de “diva pop”.
Claro, “Gostosin” (Anitta) nada se parece com “Cheiro de Amor” (Maria Bethânia), ou mesmo com “Baby” (Gal Costa). São músicas com propostas diferentes, buscando atingir públicos diferentes e produzidos em benefícios diferentes. E não é como se as grandes vozes da MPB não falassem sobre sexo em suas canções. Em Sexo e Luz, Gal canta: “Cair no lago do teu amor / Ali / Aliviei todo o meu sofrimento / E ui / Me vi gemendo de prazer que nem de dor”. Anitta, por outro lado, canta: “Bota na boca / Bota na cara / Bota onde quiser”.
Indiscutivelmente, a letra cantada por Gal é mais sutil. Consulte-se ao sexo de maneira mais poética, aberta a interpretações. A letra de Anitta é explícita. Ninguém se pergunta, ou mesmo vira tópico de discussão entre amigos, qual é o significado por trás de “Bota na boca / Bota na cara / Bota onde quiser”. Porém, quando eu me refiro a Bethânia e Costa sendo divas pop, me refiro à popularidade que as cantoras também usufruem; o marco na cultura popular que ambas as cantoras deixaram impressas no imaginário coletivo. Para ser diva pop não precisa fazer um show pirotécnico e troca de looks a cada três músicas, basta ser potência em discurso e ser impacto na cultura popular. As três artistas preenchem o requisito.
E não é como se Anitta não tivesse tido músicas menos explícitas. No seu álbum de 2019, Kisses, a cantora escolhe como música final do projeto uma composição autoral, e assim, faz um dueto com a lenda da música brasileira Caetano Veloso. É uma música mais inspirada na MPB do próprio Caetano e possui um ritmo menos acelerado. Os versos seguem assim: “Você mentiu / E eu não desvia nem mesmo ligar / Eu não desvia nem mesmo aceitar / Mais uma loucura de amor”. Sendo essa uma música do repertório da carioca, não acho que se ela parasse em momento do show para cantá-la, conduzindo assim o ritmo agitado dos shows, o título de “diva pop” seria tirado dela…
Dito isso, eu comecei a comparar as músicas dos artistas porque um dos argumentos do meu amigo era exatamente a composição lírica e melódica das canções. E assim, particularmente, eu não comparo as composições desses artistas mencionadas acima. Se eu quero comparar uma letra de Maria Bethânia que é mais sutil em sua mensagem, eu faço isso com outras composições que se assemelham à música escolhida para a comparação. Não se compara com Anitta, apesar de eu já ter dado o exemplo de uma música mais “destoante” do repertório da cantora pop. Cada cantora vai ter o seu estilo de composição e trejeitos de apresentação em cima do palco, o que faz a diferença entre si e o que fazem sendo artistas diferentes; ainda assim, são cantoras “divas pop”.
Ivete Sangalo também é diva pop; Ludmilla é diva pop; Adriana Calcanhotto é diva pop; Melodia é diva pop; Vanessa da Mata é diva pop; Irmãs de Pau são divas pop; Marisa Monte é diva pop. Portanto, diversos outros nomes poderiam ser categorizados enquanto “divas pop”.
Essa discussão, enfim, leva-me a outro questionamento. Existe música para diversas graças, assim como existem gêneros de filmes, com objetivos diferentes e até mesmo com propostas de atingir públicos diferentes. Por que a vulgaridade das músicas da Anitta incomodou tanto os apreciadores de músicas que possuem uma composição “melhor estruturada”? A perturbação aqui não é com o gosto pessoal, mas sim com a ideia equivocada de que música que aborda sexo de maneira explícita seja indiscutivelmente música inferior.
Não podemos esquecer que o Brasil passou por períodos de grande recessão, não apenas social e econômica, mas também cultural. É claro que uma influência a outra. A produção cultural passa por um crítico e uma censura na época de ditadura militar, assim como o governo Bolsonaro em 2019, que abusa nos cortes das políticas públicas de incentivo à cultura e às universidades públicas, importante espaço de democratização e incentivo à criação cultural.
Dados esses contextos políticos e culturais, é certo que a mentalidade mais conservadora ainda é preservada na ideia de quem viveu esses momentos de recessão na pele. Na época de ditadura não podia se revoltar contra o sistema militar, assim como não podia se vestir de maneira inapropriada, bem como não podia se falar sobre sexualidade de forma explícita. Ney Matogrosso (outro “divo pop”, posso assim dizer) foi constantemente censurado em seus shows pelo uso excessivo de maquiagem, uso de roupas curtas e decotadas e por sua expressão corporal no palco, acusado de ser muito feminino.
É a partir de valores mais conservadores que a expressão artística é encaixotada, cada qual em seu canto, e aquela expressão que não segue um determinado padrão moral é julgada como menos artística do que outras com um “apuro estético” mais sofisticado ou uma composição lírica “melhor desenvolvida”.
Fato é que músicas carnavalescas, já que estamos prestes a estrear uma temporada de carnaval, sempre foram despretensiosas e objetivamente divertidas. As marchinhas são símbolos de coletividade entre os foliões da festa de rua. Quem nunca cantou, ao som de outras vozes desconhecidas: “Ó abre alas / Que eu quero passar / Ó abre alas / Que eu quero passar”; ou até mesmo algumas mais dúbias, se alguma grande diva pop a fez repercutir, como é o caso de “Mamãe eu quero / Mamãe eu quero / Mamãe eu quero mamar / Dá a chupeta / Dá a chupeta / Dá a chupeta pro bebê não chorar”, eternizada por Carmen Miranda.
Porém, mesmo com uma música um pouco mais atrevidinha ali ou aqui, eu nunca que ouvi uma marchinha que fez sucesso no carnaval de 1920: “Na minha casa não se lenha / Na minha racha / Na minha racha / Na minha casa não há falta d'água / Na minha abunda / Na minha abunda / Na minha casa não se pica fumo / Na minha pica / Na minha pica”. Não tem uma letra bem elaborada, não serve como retrato da década de 20, e ainda assim, foi o sucesso das marchinhas da época. Em 2026, não se escuta mais ela, porém, “Ó abre alas” continua sendo reconhecido.
Entre tantos fatores para descredibilizar as músicas explícitas, a restrição de idade ainda é um fator a ser levado em conta. E eu entendo. Não devemos abordar assuntos como sexualidade de maneira tão trivial para o público infantil. Porém, eu acredito que as músicas de carnaval e composições assanhadas da Anitta sejam os menores dos problemas quando se trata de expôr antecipadamente as crianças a tópicos sensíveis, visto que os jovens homens são ensinados desde pequenos a serem responsivos e desrespeitosos com as jovens mulheres, criando assim, uma cultura de abuso e machismo desde cedo.
Enfim, as músicas de baixo calão e explícitas ainda possuem sua função enquanto produto cultural. Não é para ser levado a sério, muito menos criar uma grande tensão em volta de tópicos que são abordados de maneira mais saudável nas aulas de educação sexual e nas salas de terapeutas. Na rua, durante o carnaval, a intenção é se divertir, e cada um diverte-se como quiser sem impor limites na diversão, caso não fique interferindo ou machucando nem um outro alguém, é claro.
Dito isso, Gal Costa é para sempre a minha maior referência de música brasileira. Sempre que eu ouvi “Mas eu não vou ficar sozinho no meio da rua / No meio da rua / Esperando que alguém me dê a mão / Me dê a mão” meus olhos marejam de emoção, no dueto com Caetano Veloso em Ele Já Não Gosta Mais de Mim (Que Pena). Porém, no carnaval de 2026, eu vou estar preferindo cantar “O que você faz em cima do Jetski / Vem e me maceta / Vem / Vem e me maceta”, música de Pedro Sampaio com a Melody e MC Meno K.
Escrita por Lucas Eduardo









