O conceito de humanidade proposto pela 36ª Bienal de São Paulo
Fonte: Vista da instalação de Tanka Fonta durante a 36ª Bienal de São Paulo © Levi Fanan / Fundação Bienal
A Bienal de São Paulo é um evento de circulação e exposição de arte que acontece a cada dois anos. A partir de uma temática específica e escolhida para cada ano, os salões ocupados pela Bienal abraçam as múltiplas expressões artísticas que desencadeiam a temporalidade “contemporânea” do mundo das artes.
Concretizada em 1951 por Ciccilio Matarazzo, fundador do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), e também pela sua esposa Yolanda Penteado, segundo artigo publicado pela SP-Arte, a qual teve o trabalho de articular e convidar os artistas participantes da primeira edição do evento. Assim, a 1ª Bienal do Museu de Arte Moderna, como assim foi chamada, recebeu 729 artistas e 1854 obras, totalizando 25 países representados.
A 2ª edição do evento, ocorrida no usual Parque do Ibirapuera, já obtinha relevância nos circuitos de exposição de arte. É possível fazer tal afirmação porque foi nessa ocasião que Guernica (1937), de Pablo Picasso, foi exposto em território brasileiro e concedido pelo MoMA (Museum of Modern Art - Museu de Arte Moderna de Nova York). Além disso, artistas como Edvard Munch e Piet Mondrian também compuseram os salões daquele ano, assim como Walter Gropius, ex-diretor da escola de arte e arquitetura alemã Bauhaus, recipiente daquele ano do prêmio de arte e design concedido pela própria comissão da Bienal.
Esses fatos reiteram a importância do evento para a cena das artes no Brasil e revela a potência do discurso enquanto finalidade de uma exposição. A partir dos próximos anos, com a chegada de períodos como o da ditadura militar, as novas obras selecionadas carregavam consigo uma poética de denúncia cada vez mais latente. Enquanto um evento institucionalizado, até mesmo a 10ª edição da Bienal sofreu para a inclusão de artistas, acarretando em um grande número de recusas naquele ano sob ordem do regime de censura do Estado.
Enfim, dado o breve contexto histórico, a 36ª edição ocorreu entre os dias 6 de setembro de 2025 e findou-se no dia 11 de janeiro de 2026. Intitulada como: Nem todo viandante anda estradas - Da humanidade como prática, o tema central é baseado no poema de Conceição Evaristo, Da Calma e do Silêncio. A escritora mineira é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestra em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica (PUC - RJ) e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e é um grande nome da literatura contemporânea brasileira, tendo escrito obras renomadas como Ponciá Vivêncio, Insubmissas Lágrimas de Mulheres e Olhos D’água. O poema no qual se baseou a proposta curatorial da Bienal segue assim:
Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
A partir disso, a curadoria assinada por Bonaventure Joh Bejeng Ndikung e cocuradoria de Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza e cocurador et large Keyna Eleison, reiteram com a escolha das obras selecionadas o quanto o meio ambiente e as pessoas provocam sensações e sentimentos dentro de um corpo que não poderiam ser assimiladas de maneiras verbalizadas; ou mesmo que poderiam ser verbalizadas, mas que no ato de sua socialização, a sensação e o sentimento se transformam em um conceito coletivo. Segundo o site da Bienal, os idealizadores da exposição se inspiraram no conceito migratório das aves para a seleção das obras que estão expostas, reconhecendo a necessidade de transformação contínua desencadeada a partir de memórias, experiências e linguagens.
Ou seja, as aves percorrem grandes distâncias, carregando consigo memórias de onde vieram, as experiências adquiridas ao longo do caminho e desenvolvem meios de linguagem entre si e entre o mundo que permitem que a sua migração seja possível de um ponto para o outro.
Apresentado o conceito, estão presentes na 36ª Bienal as linguagens artísticas: performances, vídeos, fotografias, pinturas, sons, instalações, esculturas, escritas, experimentações coletivas, musicais, dentre outras. Divididas em 6 capítulos, cada novo segmento da exposição desdobra uma nova relação possível entre indivíduo e meio ambiente. O primeiro capítulo debruça-se sobre o pertencimento na Terra através do solo, através da conexão com o ambiente que nos cerca; o segundo capítulo é voltado para a denúncia de violências que são acarretadas pelo existir em comunidade, assim como explora as possíveis maneiras de emancipação entre um sistema e o indivíduo que integra o organismo que nutre e operacionaliza esse mesmo sistema.
A partir do terceiro capítulo, já situado em um novo andar do pavilhão Ciccilio Matarazzo do Ibirapuera, as relações espaciais são exploradas, buscando relacionar espaço físico com as métricas de organização temporal e de divisão de território, bem como perceber os diferentes contextos culturais e sociais que complexificam as relações humanas; o quarto capítulo dialoga com as formas de comunicação existentes entre humanos e demais seres vivos, ou mesmo entre si, percebendo a criação de comunicação não necessariamente verbal e explícita enquanto potência comunicacional; o quinto capítulo, por sua vez, explora a relação entre tecnologia e meio ambiente, buscando compreender por que o ser humano cria novas ferramentas que modificam sua forma de viver e os impactos dessas transformações.
Por fim, o sexto capítulo é sobre enxergar beleza nas relações exploradas anteriormente na exposição, objetivando encontrar um valor simbólico e palpável no que é possível perceber em conjunto e, sobretudo, como diz o poema de Evaristo, naquilo que somente é sentido no silêncio, na paciência e na valorização do passo que é lento.
A Bienal inaugurada no ano passado é certamente ambiciosa em escala, em projeção (ativações ao redor do mundo foram feitas a partir de obras expostas no Ibirapuera), em produção e em conceito. Ao todo, foram 125 artistas expostos, emaranhados e entrelaçados por uma narrativa que busca digerir e assimilar a ideia de humanidade e suas relações: entre si, entre território, entre tecnologia, entre sentido e entre linguagem.
O espaço do evento, por si, chama a atenção do visitante, e o cativa a explorar cada vez mais o local da Bienal. A expografia, assinada por Gisele de Paula e Tiago Guimarães, incita o observador a buscar os entrelaçamentos entre as obras. Não há roteiro definido. O espaço do pavilhão é amplo e cheio de espaços vazios, o que prende a curiosidade acerca das obras contemporâneas espalhadas no espaço. Existem textos curatoriais que contextualizam a ideia de cada capítulo, traçando um norte entre o conceito e as obras, porém deixa sob a medida da subjetividade de quem as vê traçar as possíveis relações entre o tema e os demais trabalhos das outras artistas.
O capítulo 5 da exposição expõe uma instalação chamada And They Die a Natural Death (2022) da artista vietnamita Nguyễn Trinh Thi. Em uma sala escura (muitas dessas estavam dispostas no pavilhão para exibir obras em formato de vídeo), vários instrumentos estavam suspensos, amarrados ao teto. Ao adentrar o espaço, eu percebi que alguns instrumentos emitiam sons de maneira esporádica. Não tocavam todos ao mesmo tempo, uma hora um tocava e parava. Outra hora, outro tocava e parava logo em seguida. Não exatamente uma nota era tocada, o som mais parecia como se alguém tivesse esbarrado no instrumento e gerado aquele barulho.
Fiquei contemplando a sala escura com mais um grupo de pessoas, que por sua vez era composto, dentre outras pessoas, de uma menina na casa dos 6 ou 7 anos de idade. Logo depois, um rapaz entrou na sala e ficou admirando a obra. Entendeu a mecânica e logo começou a erguer os braços e acenar ao léu. Entendi a lógica que havia sido construída na sua cabeça e eu disse para ele: “Não acho que seja sensor de movimento que ative os instrumentos, acredito que existe um cronômetro acoplado neles que aciona o barulho a cada x segundos, variando o tempo entre um e o outro”.
Logo depois que o rapaz saiu da sala, a menina do grupo parecia criar coragem dentro de si para se aproximar. Sorrateiramente assim o fez e me disse, bem baixinho: “Tem sensores lá fora, os instrumentos estão tocando porque o vento está fazendo eles tocarem”. Eu disse “Ah é mesmo?” e ela concordou com a cabeça.
Entretanto, pesquisando o catálogo da exposição logo depois, me foi confirmado que nenhuma das teorias estavam corretas. A instalação, na verdade, silencia os instrumentos porque existe barulho dentro da sala. Ou seja, quanto mais barulho feito pelos visitantes, menos barulhos seriam emitidos pelos instrumentos. E é por isso que em nenhum momento da minha presença na sala eles tocavam todos de uma vez, e sim apenas esporadicamente, um de cada vez.
Não foi a obra que eu mais gostei ou que mais me inquietou durante a 36ª Bienal de São Paulo, mas certamente foi a obra que me fez compreender, de maneira não objetiva, o conceito da exposição. Eu contei para o rapaz que acenava e fazia gestos que a instalação não funcionava do jeito que ele pensava, assim como a menina me contou erroneamente o funcionamento dos barulhos dos instrumentos, porém, naquele momento, estávamos exprimindo nossas ideias sobre a obra. Criou uma conexão momentânea entre 3 pessoas desconhecidas, tentando desvendar algo que estava fora da nossa capacidade de articulação, dada a pouca informação que nós tínhamos.
Confesso, todavia, que não me importou muito que a ideia da obra fosse que concordássemos todos com o silêncio na sala para ouvir os instrumentos tocando. Eu preferi que eu pude ouvir a ideia da menina e criamos ali, naquele momento, um acordo de tentar entender algo que não estávamos em condição de compreender inteiramente. Eu preferi porque me fez pensar que é exatamente assim que nós vivemos o restante das nossas vidas, trocando ideias uns com os outros sobre algo que nós nunca vamos vivenciar de maneira inequívoca e universal, somente podendo ser sentida de maneira particular. A minha interpretação da instalação dos instrumentos se encaixa melhor com o conceito da Bienal do que a própria poética da artista.








