A Desaceleração de Práticas Culturais em Centros Urbanos

Como a estrutura de fomento cultural desencadeou a diminuição da socialização de atividades culturais

 

Foto: Conquista Repórter

O setor da produção cultural tem sofrido para encontrar novos caminhos para continuar existindo e até mesmo com uma dificuldade em encontrar novas pessoas dispostas a serem trabalhadoras da cultura. O ponto-chave para entender esse declínio é avaliar a maneira como essas pessoas profissionais estão sendo respeitadas e valorizadas na condição de agentes sociais que disseminam cultura. 

Esse primeiro parágrafo se refere às atividades de coletivos e artistas independentes, que fazem seu trabalho circular nos espaços culturais de suas cidades e nas mídias digitais. A produção cultural, enquanto grupo de profissionais responsáveis por gerir e produzir um evento cultural, é uma categoria para um debate diferente do que eu proponho hoje, mas que não está completamente fora dos eixos da discussão.

Enfim, existem alguns fatores possíveis de serem responsabilizados pela desaceleração de atividades culturais independentes. Um desses motivos é o incentivo, ou melhor dizendo, o desincentivo financeiro que impulsiona a existência de projetos culturais. Os editais estaduais e federais que promovem atividades culturais acontecem por etapas, normalmente possuindo um ciclo de inscrição e aprovação que leva um ano e nem sempre abarcam todos os setores. Então, se um edital é voltado para as diversas vertentes das artes cênicas e audiovisuais, o artista de rua pode ter que esperar um novo ciclo de editais ser aberto, esperando e criando a expectativa se o seu projeto poderá encaixar-se em alguma proposta desse novo edital.

O problema seria fácil de resolver se fosse somente uma questão de logística. Quem sabe um calendário organizado delimitando uma nova leva de publicação de editais a cada 3 meses, por exemplo, sempre priorizando um setor da cultura diferente, minimizando assim a problemática da não contemplação de projetos em novos editais. 

Porém, muito se sabe que a aprovação de um projeto se dá por meio de um comitê avaliador, ou seja, independente da viabilidade ou não do projeto, normalmente são aceitas propostas de pessoas autoras que já estão envolvidas de alguma maneira com o setor cultural, seja porque já teve propostas aceitas em momentos anteriores ou porque possui uma rede de contatos favorável para a aprovação. O trabalhador completamente independente trava uma batalha contra pessoas mais influentes no meio, assim, diminuindo as chances da sua aprovação em editais culturais.

Isso desencadeia uma grande leva de profissionais que passam a “uberizar” a sua ação laboral. Enquanto esperam o lançamento de um novo edital ou mesmo aguardam o resultado de um projeto que já foi submetido, a pessoa trabalhadora passa a oferecer serviços em outros setores, como no próprio setor de transportes, se tornando motorista de aplicativo. É claro, existe uma gama de possibilidades de trabalhos que, apesar de serem precárias e não oferecerem direitos trabalhistas assegurados, tornam-se rendas mais confiáveis do que a possível aprovação do projeto, que ainda por cima possui um tempo pré-determinado de existência.

Desde 2023, as leis de incentivo à cultura tais como as leis Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) estão continuamente lançando novos editais. Um avanço em comparação a cena desastrosa do período do governo de Jair Bolsonaro, entre os anos de 2019 e 2022. Pode-se utilizar como exemplo o caso do da possibilidade do repasse de quase R$4 bilhões para a execução de projetos aprovados pela lei Paulo Gustavo, que foi vetada pelo então presidente com a justificativa de “contrariar o interesse público” e de que o  investimento não “justificaria o gasto”.

Este descaso desencadeia o desemprego de milhões de pessoas trabalhadoras da cultura e artistas, não somente naquele ano em específico, mas também nos anos que se seguem, acarretando em um êxodo de trabalhadores do setor em direção a jornadas de trabalhos com uma renda financeira mais segura, sem apreensão de cortes de verbas constitucionais por capricho de quem assina enquanto chefe do Executivo do Estado.

Outro fator que contribui para o que eu estou chamando de “desaceleração da cena cultural” é a forma como os trabalhos dos coletivos estão dependentes das redes sociais. Hoje, para estar em contato com o público específico voltado para as ações culturais e artísticas, é preciso dialogar com o algoritmo das plataformas digitais. Se por um lado, existe um saldo positivo quando se refere ao alcance do número de pessoas que é possível atingir, dinamizando e integrando diferentes indivíduos de diferentes nichos para a continuação de uma prática cultural, por outro lado, os números necessários de likes e compartilhamentos exige que aquele determinado grupo/coletivo esteja refém das redes sociais. Ou seja, restringe as atividades que deveriam acontecer presencialmente em detrimento de uma métrica que objetiva cada vez mais engajamento.

Óbvio, com a chegada de aplicativos como o Instagram, X (antigo Twitter) e TikTok, existem novas possibilidades de produção cultural e artísticas que envolvem a socialização através das redes. Não é porque o mundo se moderniza que as práticas devem ficar estáticas, a serviço de um saudosismo que não existe em consonância com a realidade que é potente. Porém, eu acredito que deve-se tomar cuidado com a centralização de atividades que ocorrem de maneira virtual. Práticas culturais são, sobretudo, atividades de integração de pessoas e familiarização de espaço e identidade coletiva. Se nada mais grita ser nosso do que o espaço territorial onde a gente vive, por que não fazer uso dos espaços da cidade?

Como que as travestis criam uma língua derivada do iorubá se não existe o contexto da vida nas ruas enquanto profissionais do sexo? Como que o Olodum continua e perpetua suas práticas musicais se não há encontros presenciais e com instrumentos? Como que os coletivos de dança e teatro se desenvolvem se não existe um parceiro de cena? Se não existe um espaço que contextualize a prática artística com o local onde é encenado/apresentado?

Pontuando as características de o porquê os grupos culturais e artísticos estão perdendo a força (enquanto número e práticas de atividades recorrentes), ainda é possível pontuar que, enquanto um trabalho que seja independente, muitos profissionais acabam se sentindo sobrecarregados com o acúmulo de funções. Se a proposta parte de um coletivo, há a facilidade de delegar tarefas para cada membro, mas se o projeto é desenvolvido por um número reduzido de pessoas, a quantidade de funções que um pode encarregar-se durante o processo pode causar desânimo e fadiga.

Enfim, eu acredito que esses sejam os principais pontos que desaceleram a produção cultural em um cenário urbano. Agora, ao invés de as atividades serem práticas que acontecem com frequência, e que poderíamos esperar de diversos proponentes, se tornou um acontecimento extraordinário, acontecendo poucas vezes durante o ano. É claro, quanto maior for a população de um centro urbano, maior a quantidade de atividades culturais que vai acontecer naquele espaço. Não podemos comparar São Paulo com Vitória da Conquista, por exemplo. É importante destacar, porém, que mesmo na capital paulista, diversas práticas continuam acontecendo porque são agentes culturais que mantêm de pé a disseminação e a integração de novos indivíduos praticantes, independente de apoio de editais.

A cultura e a arte sobrepõem-se às falhas estruturais que desincentivam suas proliferações. Enquanto existir agente cultural e enquanto existirem coletivos, as práticas continuarão existindo e se transformando, evoluindo e tomando espaços, sejam urbanos ou virtuais, mas que reivindicam-se enquanto direito constitucional.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

Comentários


Instagram

Facebook