A solidão enquanto sintoma de uma má formação social entre homens gays
Fonte: Little Girl Looking Downstairs at Christmas Party / Norman Rockwell
A época do fim de ano é um momento meio agridoce. É bom porque é um momento de descanso, quando é possível encontrar sem grande correria as pessoas que são mais próximas da gente, aproveitar o tempo ocioso (que também é importante) para recarregar as energias e planejar o desenrolar da vida para o ano seguinte. Porém, não consigo deixar de pensar que o final do ano também é esse momento em que a ansiedade efervesce mais do que nunca. Não importa de onde vem, a cobrança em alcançar mais, ser melhor e atingir novos objetivos profissionais e pessoais parece que ganha uma voz que grita violentamente mais alto. Ao menos no meu íntimo eu sinto dessa maneira. Penso, portanto, que se eu me sinto assim, outras pessoas devem se sentir também.
É claro, deve-se levar em consideração o contexto que eu vivo e a subjetividade que me torna um indivíduo particular. Acredito que os recortes sociais (branco, cisgênero, homossexual, classe média, etc) são essenciais para entender a natureza do meu pensamento e sentimento em relação ao fim do ano. Apesar de existirem diversos fatores que contribuem para o meu bem estar, eu ainda sinto o gosto agridoce dessa época do ano.
Introduzindo a coluna com esse contexto, nesta semana me apeguei ao sentimento de solidão. E não por que eu particularmente esteja me sentindo sozinho, mas veio a calhar, por um motivo em específico, a lembrança de que existem outras pessoas que possuem os mesmos recortes que o meu, ou mesmo que não, e que estejam se sentindo sozinhas. Como foi dito anteriormente, essa época do ano é campo fértil para produzir pensamentos intrusivos e ansiosos.
Constantemente me pego lembrando de um artigo que eu li há alguns anos atrás, The Epidemic of Gay Loneliness. Segundo dados fornecidos pelo autor, Michael Hobbes, homens gays possuem duas a dez vezes mais chances de cometer suicídio do que um homem hétero, são duas vezes mais suscetíveis a passar por episódios depressivos e, a partir de um recorte da população de Nova York, três quartos dos homossexuais residentes da cidade são acometidos por depressão, ansiedade, abusam de drogas ou álcool ou praticam sexo sem o uso de preservativos ou outros métodos de prevenção de IST’s. E apesar da epidemia de AIDS que ceifou milhares de homens da comunidade, segundo o artigo, o suicídio continua sendo a maior causa de mortes.
Hobbes tem como objetivo escancarar as doenças e transtornos que homens gays têm em comparação aos homens héteros ou as mulheres para defender o argumento de que a solidão, autoimposta ou socialmente imposta, é sintoma comum entre homens da comunidade LGBT. A formação de entendimentos cognitivos-emocionais essenciais para uma vida social adulta é moldada ainda nos primeiros anos de vida (Hobbes também menciona no artigo). A masculinidade, assim como a feminilidade, é um conceito social imposto precocemente na vida de crianças. Antes de se entenderem enquanto gente, antes de se entenderem enquanto indivíduos particulares, as crianças são estimuladas a pensar em categorias de gênero e perceber qual foi a categoria que lhe foi imposta. Esse contrato heterocentrado (designação de performances masculinas e femininas) impede que a subjetividade desses indivíduos se desenvolva para além do que foi socialmente decretado para elas.
Assim, se durante o período de estabelecimento de conhecimento de mundo e desenvolvimento de cognição emocional as crianças são apresentadas a uma regra social, logo a regra passa a ser verdade absoluta e inquestionável. O gênero se torna, portanto, um conjunto de performances e comportamentos que não necessariamente são espelhos da subjetividade individual, mas apenas reprodução indubitável de regras previamente estabelecidas e entendidas como naturais.
A partir disso, vê-se na pessoa homossexual (e pessoa LGBTQIAPN+ no geral) uma descumpridora do contrato social heterocentrado, visto que ela não está seguindo uma performance de gênero da maneira como lhe foi ensinada (homem deve sentir atração por mulher, homem deve se vestir de determinada maneira, homem deve se comportar de determinada maneira). Portanto, a subjetividade na maneira de agir, de se comportar, de escolher o que falar e de quem se relacionar é ferida em um momento em que a sua construção serve como base para o restante da vida.
Dito isso, é inevitável que o indivíduo homossexual se sinta, em algum momento da sua vida, fracassado por não cumprir as regras do contrato heterocentrado ou mesmo que esconda sua maneira de sentir e viver por medo da reação do seu círculo social. A solidão é inerente sintoma da culpa.
William Elder, psicólogo e pesquisador sobre traumas sexuais, afirma que, caso você sofra um evento traumático, você tem um tipo de estresse pós-traumático que pode ser resolvido entre quatro e seis meses de terapia. Porém, se você experiencia pequenas micro-agressões ao longo de anos da sua vida, você começa a naturalizá-las e enxergá-las como processos inatos de viver, tornando-se um estresse pós-traumático que é sempre dolorido e mais difícil de ser tratado.
É possível argumentar de diversas maneiras por que a solidão aflige com maior facilidade a população LGBTQIAPN+. Eu diria, primeiramente, que se trata de um problema conceitual de gênero. E depois, é claro, perpassa pelos recortes sociais, atingindo certos indivíduos de maneiras diferentes. As festas de fim de ano são o momento onde o círculo social se estreita, ou até mesmo muda completamente, questionando repetitivamente a maneira como você deveria se comportar perante um grande grupo de pessoas, assim fortalecendo o sentimento de solidão. Afinal, você não pode ser exatamente quem você é diante de uma plateia que possui novos rostos; precisa conquistá-las primeiro. E como você vai fazer isso se nem as regras do contrato social você consegue cumprir?.
Rolando o feed do Instagram dias desses, me deparei com o seguinte trecho escrito pela Athena Rosati, filósofa e psicanalista: “O travamento não é ausência de desejo. É desejo interrompido. [...] Travar é um modo de sobrevivência diante de forças que exigiram silêncio, adaptação ou invisibilidade”. Vejo, portanto, o travamento como o primeiro e contínuo passo para a solidão do homem gay, onde vê no seu desejo e expressão de identidade um modo de existir que não é digno de ser mostrado.
Fato é que a solidão é uma experiência universal. Se alguém não a sente em períodos festivos, em algum outro momento da vida ela se faz presente. O que faz o tópico ganhar mais tração em festas de fim de ano é o fato de que, nem mesmo em um momento de reencontro e socialização comuns do natal e réveillon, o sentimento deixa de existir. Ou seja, às vezes não se trata em não ter com quem estar junto. É apenas mais um sintoma da falha da educação social e o equívoco em designar categorias para expressões que não necessariamente estão de acordo com a norma. Apesar das pesquisas e citações focando na experiência enquanto homem homossexual desta coluna, essa falha e equívoco não são exclusivas da comunidade gay. O que demonstra, pelo menos na minha compreensão, o quanto o senso de coletividade e diversidade ainda não são integralmente compreendidos enquanto essenciais em uma etapa da vida que basicamente define quais os mecanismos de socialização que serão utilizados dali em diante.








