A falta que o Cine Madrigal faz em Vitória da Conquista

Como que o desuso de um patrimônio socialmente designado impacta na diversidade cultural da cidade

Fonte: site Prefeitura de Vitória da Conquista

O final do ano é sempre o momento dentro do período de doze meses que os grandes estúdios de Hollywood decidem lançar os blockbusters, filmes de orçamentos milionários e que possuem estimativa de grande arrecadação nas bilheterias. Em 2025, esse foi o período em que aconteceu a estreia de Wicked Parte 2, estrelado pela popular cantora Ariana Grande; Avatar: Fogo e Cinzas, franquia do diretor James Cameron que desafia o uso da tecnologia para a criação de imagens digitais como recurso de filmagem; e Zootopia 2, continuação da animação da Disney que estreou quebrando recordes de bilheteria ao redor do mundo. Porém, esse é o momento também de estreias de filmes cotados para as grandes premiações dos circuitos de cinema, claro, considerados a partir do cronograma de exibição estadunidense.

Este ano temos títulos como Bugonia, estrelado por Emma Stone sob direção do conceituado diretor Yorgos Lanthimos; Sentimental Value, filme norueguês palco de atuações elogiadas; e It Was Just An Accident, produção iraniana vencedora da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025. Ou seja, os meses de novembro, dezembro e janeiro são épocas em que acontecem um grande número de estreias nas salas de cinema, sejam elas produções de grande arrecadação, destinadas a alcançar a maior quantidade de público possível, sejam elas projetadas na intenção de concorrer ao reconhecimento das premiações norte-americanas.

Particularmente, eu sou o tipo de público que consome e aprecia ambos os tipos de filmes. Durante o período pré-lançamento da continuação de Wicked, por exemplo, eu estava reassistindo ao primeiro filme, ouvindo as músicas e pesquisando mais sobre a história original em que a produção é baseada. Comprei o meu ingresso com três dias de antecipação e estava empolgado no dia de ir ao cinema assistir ao filme. Porém, eu não posso dizer que tive a mesma experiência ao me antecipar para assistir Bugonia. Eu atualizava o site de uma rede de cinemas de Vitória da Conquista, na semana marcada para a estreia nacional do filme (27/11/25), e o título nunca aparecia na grade de programação da semana.

É claro que a grande rede de cinema prioriza a exibição de filmes em que se estima um grande retorno financeiro. Sem dúvidas, Wicked é um filme que possui um extenso material de marketing na mídia, diferente de Bugonia, que possui outros objetivos, dentre os quais obter uma grande venda de ingressos não é uma delas. Dito isso, o filme da Ariana Grande certamente obteve maior êxito de público no Brasil (e no mundo) do que Bugonia. Portanto, vale a reflexão de que, se nem um filme cotado para o Oscar merece exibição na rede de cinema da cidade, como fica o cronograma de exibição de filmes independentes nacionais? A resposta é: não existe cronograma.

Diante do exposto, gostaria de dizer que a minha experiência morando em Salvador foi diferente. Apesar das grandes redes de cinema, sempre que eu me antecipava para assistir um filme que não era um blockbuster, eu podia contar em abrir o Instagram do Cine Glauber Rocha e achar o filme que eu queria assistir na programação, pontualmente no dia de estreia marcada para o Brasil. Alguns podem dizer que não se pode comparar uma capital com uma cidade do interior, mas eu retruco, questionando se o público de Vitória da Conquista não merece o mesmo comprometimento com a diversidade de filmes exibidos nas unidades de cinema. Será se realmente é um prejuízo financeiro trazer filmes menores para a cidade?

O espaço do Cine Glauber Rocha em Salvador existe desde 1917, tendo seu primeiro nome como Cine Teatro Guarani. Durante o período de vida do espaço, houve momentos de interrupções de atividades, a partir de 1998, e momentos de revitalizações, depois da sua reabertura em 2008. A partir de uma parceria da Secretaria da Cultura e do Turismo (na época não existia a separação entre as duas secretarias), a Bahiatursa, o Unibanco e o Instituto Moreira Salles, o Glauber Rocha passou a priorizar a exibição de filmes independentes em suas salas de cinema após a reforma. Os filmes de maior circulação, é claro, possuem seus períodos de exibição eventualmente, ou mesmo em outras redes privadas de cinema da cidade.

A existência de um cinema alternativo pode parecer uma realidade distante, quase impossível de ocorrer em Vitória da Conquista, porém, vale lembrar que a cidade também já foi sede de uma sala de cinema popular. O Cine Madrigal foi inaugurado em 1968 e foi palco de diversas exibições, tanto nacionais quanto internacionais, e possuía 960 poltronas e equipamento de luz cenográfica. O seu encerramento aconteceu em 2007, sendo comprado posteriormente pela prefeitura em 2014 com a intenção da criação de um ponto de atividades da Secretaria Municipal de Educação, porém o espaço segue inutilizado.

Em março deste ano, o coletivo Movimenta Cultura Conquista elaborou uma carta-proposta destinada à prefeitura de Vitória da Conquista, recolhendo assinaturas da sociedade civil que estivessem de acordo com a ideia de revitalização do espaço do Cine Madrigal. A carta obteve aproximadamente 2687 assinaturas. Pode parecer pouco, considerando a escala de um projeto de readequação e planejamento de equipamento cultural, porém, se houvesse uma grande difusão da carta por meio das mídias de comunicação da cidade, ou mesmo mais de um coletivo reiterando a importância da proposta, o retorno de assinaturas certamente seria maior. É importante deixar claro que o ato do Movimenta Cultura foi essencial e focaliza para o conhecimento público a escassez de espaços culturais em Vitória da Conquista.

Respondendo a pergunta levantada mais acima na coluna, mesmo que seja um prejuízo financeiro trazer filmes de menor escala para as salas de cinema da cidade, é prerrogativa garantida pelo Estado brasileiro a execução de políticas públicas que preservem o patrimônio urbano (poderia-se argumentar que o Cine Madrigal é um patrimônio da cidade de Vitória da Conquista, mesmo não sendo tombado) e da promoção da diversidade cultural, vide a lei nº 10.257/2001 e a lei nº 14.835/2024.

É claro, se falamos em redes privadas de cinema, no final do dia, a decisão de o que deve e o que não deve ser exibido é completamente pautada na previsão do retorno financeiro que aquele filme em específico pode trazer para a unidade responsável pela exibição, gerando lucros para a empresa como um todo. Porém, casos como o Cine Glauber Rocha em Salvador exemplificam que, a partir de preceitos da Constituição de 1988, espaços de cultura não devem necessariamente ser criados e mantidos com a intenção de serem lucrativos. A diversidade e a acessibilidade de produtos culturais diversos são direitos prescritos.

Assim, para que aconteça uma reviravolta nessa história, é necessário que a sociedade civil conquistense se organize, juntamente com coletivos de promoção artístico e cultural, e pressionem a prefeitura de Vitória da Conquista para que o espaço do Cine Madrigal possa ser utilizado de alguma nova maneira. Se não a partir de uma revitalização como uma sala de cinema, um ponto de apoio da Secretaria Municipal de Cultura, talvez... Quanto a estrutura de um cinema popular, a pressão social também é essencial para a criação de um circuito de cinema que tenha como objetivo a exibição de filmes independentes, quem sabe até propor a ideia de que seja um espaço de promoção da produção cinematográfica da cidade ou até mesmo uma colaboração com os responsáveis pela manutenção do Cine Glauber Rocha em Salvador, propondo uma unidade do projeto em território conquistense. Enfim, são inúmeras as possibilidades de movimentações na cena cultural local nesse sentido.

Finalizo essa crítica pensando que é irônico lembrar que o maior cineasta do Brasil é conquistense, legado reconhecido pelo Estado e homenageado na maior sala de cinema independente do Nordeste do país, enquanto que a exibição cinematográfica da sua própria cidade é marginalizada e relegada, refém da exclusividade quase hegemônica de filmes hollywoodianos ou de produção da rede Globo.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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