Talvez eu morra jovem!
Antes de contar mais uma das minhas aventuras na cidade maravilhosa, devo, em minha defesa, explicar um ponto importante da minha personalidade: nasci em 02 de abril, no segundo decanato de áries. Carrego todas as características típicas de uma ariana: coragem, impaciência, sinceridade (ou sincericídio?), lealdade, e, claro, impulsividade. Sim, meu pavio é curtíssimo mesmo. Acontece, porém, que os nascidos entre 1 e 10 de abril são mais diplomáticos, por isso em muitos momentos controlam melhor suas emoções. Saí uma mistura do primeiro com o segundo decanato, então posso ser tanto uma boa mediadora de conflitos, como aquela que às vezes “bota fogo no parquinho”. Mas nunca é sem razão, posso assegurar.
Era domingo, 31 de janeiro de 2022. Eu estava no Rio pela terceira vez, para meu segundo concurso numa universidade de lá. Fiz a prova pela manhã. `A noite, Paula (minha amiga viajou comigo, que vocês já conhecem daquele texto sobre Iemanjá ter devolvido minha sandália), May (uma moça do Distrito Federal, que conhecemos quando chegamos e se tornou nossa amiga) e eu nos preparamos para conhecer o famoso Bar do Omar. Pois bem! Pedimos um carro pelo meu aplicativo. Chovia muito. Depois de alguns cancelamentos, um abençoado chamado Antônio aceitou a corrida. Eu ia acompanhando o seu trajeto. Ele passou pelo nosso hostel e subiu para o Morro da Babilônia. Para quê?!
Pouco depois vinha descendo. Antes do homem voltar, Paula me azucrinava para dar boa noite a ele. Segundo ela, se eu não mandasse logo uma mensagem ele também cancelaria. Já tínhamos descido a escada e estávamos no portão, a chuva nos molhava, molhava meu celular, eu mal podia passar o dedo sobre a tela, e ela querendo saber se eu dei boa noite ao homem! Claro que sim. Havia mandado uma “boa noite” que foi solenemente ignorado. De repente o carro passa por nós. Eu não podia acreditar! Passou direto, de novo! Nós ali no portão e ele não viu! Gritei. O carro freou bruscamente! Ao lado das meninas, desci a ladeira xingando o motorista de sonso. Eu não estava boa não! Ele parou já quase no início, onde estava uma viatura da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Bati a porta do carro com ódio e perguntei se ele não tinha nos visto. De má vontade ele respondeu:
– Não vi, mas ouvi quando você gritou. Com todo respeito, você é escandalosa, viu?
Era como se eu tivesse levado uma bofetada. Daí em diante não vi mais nada. Lembro-me de ter dito que gritei porque fui obrigada, já que ele não enxergava direito e era desorientado, pois tinha ido ao morro e voltado e já ia nos deixando ali, tomando chuva. Disse ainda outras coisas das quais eu sinceramente não me recordo, mas sei que meu rosto ardia. Enquanto eu era possuída por algum espírito justiceiro e bocudo, Paula e May eram duas estátuas ao meu lado, no banco de trás. Nenhuma palavra. Nenhum movimento. O carro avançava pelas ruas. Depois de algum tempo naquela atmosfera de guerra, respondi a uma mensagem do meu filho, que falava sobre o concurso da Polícia Civil do Rio, que tinha acontecido naquele domingo. Assim que mandei um áudio comentando algo sobre a organização da prova da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Seu Antônio puxou conversa sobre o assunto. Pronto! Dali em diante éramos bons amigos falando sobre concursos! Pouco antes de chegarmos ao Bar do Omar, pedimos desculpas um ao outro pelo destempero. Quando finalmente chegamos, nos despedimos em paz, desejando tudo de melhor um para o outro. Eu já era novamente uma pessoa educada e gentil.
O Bar, que fica no Santo Cristo, bairro da zona portuária, estava lotado! Muitos carros estacionados em volta. Ali mesmo, na porta, já fomos contagiadas pelo samba que tocava lá dentro. Que alegria! Todo o perrengue já ia ficando engraçado e logo se tornou resenha. Dinho, meu amigo ator que mora no Rio e seu namorado chegaram depois de uma peça, na Lapa. As meninas contavam sobre o ocorrido e davam ênfase ao fato de eu ter (no auge da minha irritação), ignorado completamente o fato de estarmos dentro do carro de um desconhecido, cruzando o Rio de Janeiro. Os meninos riram de se acabar. Dinho olhou para mim e sentenciou:
– Ariana! Aí eu conheço. Quando está com raiva, sai de baixo!
Ali, naquele momento, a noite estava perfeita! Conhecemos Omar filho, que cuida do estabelecimento. Fizemos fotos com ele. Quando ele soube que três de nós éramos da Bahia, contou que no dia seguinte embarcaria para Salvador para participar da Festa de Iemanjá, na terça, dia 02 de fevereiro.
Como tudo o que é bom dura pouco, logo chegou a hora de irmos embora. Nos despedimos de Dinho e Máximo, que iam para o Bairro de Fátima e em seguida entramos num carro que Paula havia chamado em seu aplicativo. O motorista que tinha ido levar uma encomenda para Omarzinho aceitou a corrida e alguns minutos depois que embarcamos, notando que não éramos do Rio, perguntou o que estávamos fazendo ali. Explicamos que fomos conhecer o bar famoso, que ele também não conhecia! Percebemos que o carro, depois de entrar numas duas ruas, ia subindo cada vez mais. Estranhamos, mas não questionamos, já que ele seguia o GPS. O motorista, então, com um sotaque mais acentuado que todos os cariocas que tínhamos conhecido até o momento, visivelmente desconfortável, perguntou mais uma vez:
— Meninas, o que vocês estão fazendo aqui?
Demos a mesma resposta anterior. De repente ele parou numa rua em que não se via uma viva alma e disse:
— Chegamos.
Assustadas, dissemos a ele que o nosso endereço era no Leme, ao lado de Copacabana. Paula repetia:
— Ladeira Ari Barroso, número 8.
— É aqui, moça. E isso aqui é perigoso. Tem traficante aqui. – Disse ele, olhando para Paula.
Entendemos então que o GPS nos mandou para o lugar errado. O rapaz já estava apavorado. Enquanto pedia que Paula tentasse mudar o local em seu aplicativo, pois ele não poderia fazer isso, ia baixando os vidros do carro. Como ela não conseguia, o medo foi se apossando de nós três. Eu já podia visualizar armas apontadas para nossas cabeças.
Nós, que já acompanhamos pelos noticiários tantos casos trágicos envolvendo gente que entra por engano em favelas, vivíamos naquele momento uma tensão que não consigo descrever. De repente Paula compartilhou a localização dela comigo. Não entendi nada. Em seguida passou o celular para o motorista, que conseguiu mudar o endereço. Esses dois últimos movimentos foram muito rápidos e logo saímos ilesos daquele lugar onde fomos parar.
Já a caminho da zona sul, entendemos o porquê de o motorista ter perguntado o que estávamos fazendo ali. “O ali” era o lugar para onde o GPS nos mandou! Juro para vocês, de nós quatro, ele era o mais desesperado. Nos contou que era de um município da Baixada Fluminense, na Região Metropolitana do Rio. Disse que na localidade onde morava havia presença de milicianos e que preferia a milícia ao tráfico. Daí eu comecei a equiparar as duas coisas, problematizando a questão e recebi uma cotovelada de Paula, sinalizando que era para eu parar de argumentar com o homem. Acho que nesse momento ela mesma me mataria, se pudesse! Ah, essa minha disposição para o debate, essa minha impulsividade! Ariana, amores. Ariana! Mudamos de assunto. Paula e May acharam melhor fazer propaganda do Bar do Omar para o motorista.
Logo estávamos na Avenida Atlântica, Orla de Copacabana. Ali nós quatro já falávamos alegremente sobre a vida. Meu Deus! Como ela é linda. É impressionante como tomamos consciência disso quando algo nos ameaça! Chegamos ao Leme e à Ladeira Ari Barroso certa! O rapaz foi um doce conosco, apesar de todo o sufoco que passamos. Mais tarde, no nosso quarto, Paula me disse que no momento do desespero ia compartilhar a localização dela com o namorado, que ficou aqui em Vitória da Conquista, mas resolveu não preocupá-lo e acabou compartilhando comigo.
— Minha filha, nós íamos morrer juntas! Ia adiantar de quê? — Perguntei.
Ela disse que se achassem o celular dela depois, isso serviria como pista.
Rimos muito. De nervoso e alívio!
Até hoje não sabemos o nome da comunidade para onde o aplicativo de Paula nos mandou naquela noite, mas sabemos que tivemos muita sorte! E como todo bom capítulo de uma história tem também um bom tema musical, o nosso só pode ser “Coração Selvagem”, de Belchior:
“Meu bem
Vem viver comigo,
Vem correr perigo,
Vem morrer comigo…”
