Os jovens estão escutando mais músicas antigas graças às redes sociais de vídeos curtos
Já não se faz mais músicas como antigamente. É o que dizem alguns fãs saudosistas e, de forma surpreendente, o algoritmo de redes sociais com foco em vídeos curtos, como o TikTok e o Instagram, parece estar entrando na brincadeira e convencendo o seu público, majoritariamente formado por jovens, a dar uma chance para o que foi sucesso nas décadas de 70, 80 e 90.
Aqui no Brasil, isso está acontecendo de forma tímida e gradual, com canções atuais ainda ocupando as primeiras posições nas trends, com letras que vão desde pedir pro “tigrinho soltar a carta” até flerte com mães solteiras – vai ser pior se eu tentar explicar, abra o Spotify e tire suas próprias conclusões.
Entretanto, grandes hits do passado também aparecem em um vídeo ou outro ao rolar a tela, agora com uma frequência muito maior. Um exemplo é a faixa “Dreams”, da banda Fleetwood Mac, lançada em 1977, e que mesmo assim ainda está na “Billboard Global 200”, a lista das 200 músicas mais tocadas em todo o mundo. Além disso, a canção também se tornou a mais escutada do catálogo do grupo no Spotify, com mais de 2 bilhões de reproduções.
O novo boom se deu através de um vídeo consideravelmente simples, onde um skatista andava pelas ruas, enquanto registrava o momento com o celular e cantava trechos da canção. Por lá no TikTok, a publicação alcançou mais de três milhões de curtidas, mais de 50 mil comentários, mais de 250 mil compartilhamentos e virou trend, o que foi aprovado pela banda e, inclusive, o baterista e co-fundador da Fleetwood Mac, Mick Fleetwood, entrou na brincadeira e gravou um vídeo usando a música.
Falando de nomes brasileiros, a escolhida da vez é Rita Lee com a faixa “Chega Mais”, que ficou em alta nas redes e fez com que a canção alcançasse a sexta colocação no top 10 do seu repertório no Spotify. Outros artistas famosos da MPB e do Rock nacional, como Tribalistas, com a faixa “Velha Infância”, Cazuza, com “Exagerado” e Legião Urbana, com “Tempo Perdido”, também passaram pelo mesmo movimento em diversos momentos ao longo dos anos.
A Gen-Z parece estar mais disposta a escutar músicas antigas
Em uma pesquisa realizada pela empresa Roberts, uma das pioneiras na fabricação de rádios a nível mundial, 57% dos entrevistados afirmaram que preferem escutar músicas antigas do que atuais, inclusive, na própria rádio, que segue sendo muito consumida por um público de todas as idades. Já 36% das pessoas se mostraram interessadas em conhecer mais sobre o passado, enquanto 18% dos entrevistados disseram ter dificuldade para gostar de canções mais velhas.
Ao traçar uma linha de corte e levar em consideração somente a opinião das pessoas da Geração Z, que abrange os nascidos entre 1995 e 2010, mais da metade do grupo, cerca de 70%, tem uma opinião positiva sobre músicas de décadas passadas. Os outros quase 30% argumentam que acham as canções antigas “chatas”.
Uma outra pesquisa, desta vez realizada pela Luminate e divulgada pela Music Business Worldwide, apontou que, em 2022, o ano em que os dados foram coletados, o consumo de músicas novas havia caído em 1,4%, enquanto a venda de álbuns antigos e em mídia física (CD, fita ou vinil) havia subido 9,3%.
Ainda segundo a pesquisa, só cerca de 30% das faixas consumidas nos primeiros seis meses daquele ano eram lançamentos; ou seja, 70% das músicas que as pessoas escutaram foram de anos anteriores.
O que era sucesso entre os jovens de outras épocas parece continuar fazendo sentido para as novas gerações
Ao entrar nos anos 90, destaca-se a rebeldia do Grunge, principalmente com o Nirvana e o seu segundo álbum, Nevermind, lançado em 1991, e que conta com a presença do hit “Smells Like Teen Spirit". O guitarrista e cantor do Nirvana, Kurt Cobain, descreveu a faixa como uma tentativa de escrever "a canção pop definitiva" e ele, de fato, conseguiu.
“Eu estava tentando escrever a melhor música pop. Eu estava basicamente tentando copiar os Pixies. Tenho que admitir. Quando ouvi os Pixies pela primeira vez, me conectei tanto com aquela banda que eu deveria estar naquela banda — ou pelo menos em uma banda cover dos Pixies. Usamos o senso de dinâmica deles, sendo suave e quieto e então alto e forte”, disse Cobain, em entrevista para a revista Rolling Stone, em janeiro de 94, poucos meses antes de sua morte.
A banda citada por Kurt, os Pixies, foi outra que viveu o momento de ter um boom entre os jovens. A faixa “Where Is My Mind?”, publicada em 1988 – e que também faz parte da trilha sonora do aclamado filme “Clube da Luta”– chegou aos fones de ouvido e às telas da Geração Z, se popularizando entre o público de forma rápida.
Ainda há espaço, por exemplo, para o britânicos do Oasis, com “Wonderwall” e “Stop Crying Your Heart Out”, além do comecinho de carreira do Coldplay, também da Inglaterra, com a faixa “Yellow”, lançada em julho de 2000, no início de uma nova década. De qualquer forma, já são 25 anos, o que faz com essa música seja mais velha que muitos que estão lendo isso aqui, inclusive, eu, mas ainda continua popular.
Ter fama rápida ou entrar para a história? A pressa de fazer um hit tem se tornado uma inimiga dos artistas
Hoje em dia, os artistas tentam acertar essa fórmula de propósito. Às vezes, já vão para o estúdio pensando em compor aquele trecho de quinze segundos que será usado em diversos vídeos no TikTok e no Instagram e acabam criando somente produtos com data de validade. Se você não acertar um hit, precisa tentar de novo. E se acertar, já precisa pensar no próximo o quanto antes.
Talvez o que aproxima os jovens das músicas antigas seja justamente a emoção, o sentimento de estar ouvindo algo genuíno e não superficial, algo que tem faltado nos tempos recentes da indústria da música, pelo menos em uma parcela do mainstream.

Danilo Souza
Estudante de Jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), músico e produtor audiovisual independente.danilosouza.jornalismo@gmail.com (Email)
@danilosouza.jornalismo (Instagram)