Comportamento Geral, de Gonzaguinha, e a submissão do povo brasileiro ao seu próprio governo

O ano era 1973, em meio à Ditadura Militar, que só chegaria ao fim mais de uma década depois, e um dos artistas mais perseguidos pelos militares, o Gonzaguinha, filho adotado de Luiz Gonzaga, lançava uma das suas melhores canções; a “Comportamento Geral”, que aborda sobre o passividade e a falta de atitude para enfrentar os problemas e ir em busca da mudança, apenas aceitando aquilo que nos é dito que merecemos.

Mais de cinquenta anos depois, parte da sociedade ainda parece viver no automático e não se interessa em lutas por melhorias sociais e/ou econômicas que possam tornar as suas vidas mais confortáveis.

Entrarei pouco em questões políticas aqui, não é minha área, não tenho conhecimento suficiente para me aprofundar, então apenas irei trazer um breve contexto para que a música faça mais sentido. Gonzaguinha ganhou o apelido de “cantor rancor”, já que 54 das suas 72 composições foram censuradas pelo Departamento de Ordem e Política Social durante o período da Ditadura (DOPS). 

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O cantor Gonzaguinha. Foto: Reprodução

A canção “Comportamento Geral” foi um dos alvos dos militares já no primeiro disco, o “Luiz Gonzaga Jr”. Àquela altura, nove anos já haviam se passado desde o início do regime e a população brasileira se tornou submissa do próprio governo. Ou você aceitava o que te falavam e te mandavam fazer, ou o pior poderia acontecer. 

A principal frase do refrão da faixa, “você merece, você merece! Tudo vai bem, tudo legal”, é como um mantra, uma linha que você precisa repetir até entrar na sua cabeça e começar a parecer verdade. É uma crítica não só política mas também social, pois adentra no dia a dia da classe trabalhadora brasileira e expõe fraquezas da estrutura da sociedade.

“Você deve notar que não tem mais tutu
E dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
E dizer que está recompensado

Você deve estampar sempre um ar de alegria
E dizer: Tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
E esquecer que está desempregado”

Ter o mínimo, ou às vezes nem isso, é o que você merece, e ainda tem que expressar gratidão, como se isso fosse uma recompensa ou algo do tipo por ser bem comportado.

Uma outra frase a ser destacada nessa faixa, ainda no refrão, em forma de metáfora, é “Tudo vai bem, tudo legal. Cerveja, samba e amanhã, seu Zé, se acabarem teu carnaval, você merece”, com a cerveja e o samba sendo utilizados como “pão e circo”, uma estratégia conhecida desde a época do governo romano para controlar a população e evitar revoltas. 

Afinal, era isso que os militares queriam; manter a população sob controle. 

“Você deve aprender a baixar a cabeça e dizer sempre: Muito obrigado. São palavras que ainda te deixam dizer por ser homem bem disciplinado. Deve pois só fazer pelo bem da nação tudo aquilo que for ordenado, pra ganhar um fuscão no juízo final e diploma de bem comportado.”

Receber o diploma de bem comportado aqui é, basicamente, seguir as regras impostas para ser recompensado. Uma recompensa ilusória, na verdade, que nunca chegará. 

O que prova isso é que as coisas ainda são assim, independente de quem seja o governante, o seu partido ou ideologia. Claro, não se compara ao período da Ditadura Militar, onde até a liberdade de expressão era perseguida. Hoje, se algo te incomoda, você pode verbalizar sem medo de ser punido. Pelo menos na teoria. 

A submissão e a passividade continuam as mesmas. Está tudo caro, você merece, seu salário mínimo não é mais o suficiente para comprar o mínimo, você merece, o seu trabalho vai mal, tudo vai bem, tudo legal. Por que lutar por uma mudança se você pode só se contentar com o seu diploma de bem comportado à espera de uma recompensa?


Danilo Souza

Estudante de Jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), músico e produtor audiovisual independente.

danilosouza.jornalismo@gmail.com (Email)
@danilosouza.jornalismo (Instagram)

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