Parece mesmo verdade que no mundo, além de amor, tem faltado interpretação de texto!

Na semana passada observei, espantada, a reação de muitas pessoas, principalmente de mulheres muito bem esclarecidas do campo progressista e de  jornalistas de importantes veículos de comunicação, à fala do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, quando este, por ocasião da indicação da deputada Gleisi Hoffmann à Secretaria de Relações Institucionais do Brasil, ousou chamá-la de bonita!       

Gleisi Hoffmann: Notícias sobre Gleisi Hoffmann | Folha Tópicos

Gleisi Hoffmann e Lula. Foto: Reprodução

Enquanto o Governo Federal lançava um dos maiores programas de crédito do Brasil, o consignado para trabalhadores com carteira assinada do setor privado e   adotava medidas para enfrentar a política de tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que ganhava destaque no noticiário e gerava revolta em gente que eu considerava incapaz de cometer erros grosseiros de interpretação, foi o adjetivo utilizado por Lula para se referir à agora ministra. Isso poucos dias passados do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, quando o presidente indicou a advogada Verônica Sterman ao cargo de ministra do Superior Tribunal Militar (STM).                   

Aprendemos que ao analisar um texto (escrito ou falado), devemos considerar o seu contexto. Essa questão básica foi completamente ignorada e a mensagem de Lula, que não contém nada de machista, foi assim entendida.

Eis a fala do presidente: "É muito importante trazer aqui o presidente da Câmara e o presidente do Senado, porque uma coisa, companheiros, que eu quero mudar, estabelecer uma relação com vocês... E por isso eu coloquei essa mulher bonita para ser Ministra das Relações Institucionais. É que eu não quero mais ter distância entre vocês." 

Repare que ele não disse que para estreitar as relações com o Congresso, colocou uma mulher bonita. Ele disse "essa mulher bonita". Não foi uma frase de quem ignora a competência de Gleisi Hoffmann, mas um elogio carinhoso. Quem distorceu a fala do presidente não levou em conta os laços que existem entre os dois.

Gleisi Hoffmann, considerada por muitos um braço forte do presidente, já foi senadora, ministra-chefe da Casa Civil no primeiro governo Dilma Rousseff e presidente do PT (Partido dos Trabalhadores). É um dos quadros mais importantes da sigla. Foi fundamental durante o período em que Lula esteve preso e nas campanhas para a presidência em 2018 e 2022. É, portanto, experiente e articulada. Lula sabe disso.

O presidente bem que podia ter substituído o termo "bonita" por qualquer outro que estivesse mais adequado à trajetória dela, mas sejamos justos, chamar uma companheira de longos anos e tantas lutas, de bonita, não o torna machista.                                   

Além do contexto, devemos considerar, ainda, o autor do texto. Neste caso, o presidente Lula que, de acordo com a própria Gleisi, em entrevista logo após todo o escarcéu da imprensa, tem um histórico que o credencia junto à luta das mulheres por espaços de comando e poder. É possível desprezar o fato de que Lula lançou a primeira mulher presidente do Brasil e mantém muitas mulheres em seu ministério? Dá para esquecer que temos uma mulher na presidência do Banco do Brasil? Tarciana Medeiros foi eleita pela revista Forbes, ano passado, a 18ª mulher mais poderosa do mundo. Ela é a primeira mulher à frente do BB desde que a instituição foi fundada. Sabe quem a indicou? Pois é, o Lula! 

Eu quis escrever sobre este assunto porque equívocos como este têm sido cada vez mais frequentes e há dois pontos que merecem nossa atenção: o primeiro é o risco de enfraquecimento de pautas e o segundo é o cuidado que devemos ter de não atribuir às pessoas aquilo que elas não são, independente de gostarmos ou não delas.


Thaty Miranda

Thaty Miranda: jornalista, radialista, viajante, concurseira, baiana, ariana e apaixonada pela vida!

Comentários


Instagram

Facebook