Novo ensino médio expõe desigualdades e impõe desafios à educação brasileira
A implementação do novo ensino médio no Brasil segue provocando debates entre educadores, estudantes e especialistas. Em entrevista, a professora Janaína Serejo, pedagoga e mestra em Educação, analisou os impactos da mudança e trouxe avanços, mas também desafios estruturais que ainda dificultam a efetividade da proposta.
Segundo o docente, a principal transformação é a reorganização do currículo, agora dividida entre formação geral básica e itinerários formativos. A primeira parte mantém disciplinas tradicionais, como português, matemática e ciências, enquanto a segunda busca amplia possibilidades, com conteúdos mais alinhados aos interesses dos estudantes e ao mundo do trabalho.
Apesar da proposta de flexibilização, a realidade nas escolas ainda está distante do ideal. Janaína destaca que, embora o modelo permita escolhas, muitos estudantes acabam limitados pela falta de opções. “Em um cenário ideal, o aluno poderia escolher de acordo com suas profundezas, mas isso nem sempre acontece, principalmente na rede pública, onde há limitações de infraestrutura e de profissionais”, explica.
A desigualdade entre instituições de ensino é um dos pontos mais críticos. Mesmo dentro da rede privada, há diferenças significativas de estrutura. Já nas escolas públicas, a dificuldade em oferecer itinerários variados e de qualidade é ainda maior, o que compromete a proposta de personalização do ensino.
Outro desafio apontado pela professora é a formação dos profissionais. De acordo com ela, não basta ter especialistas em determinadas áreas; é necessário que esses profissionais também tenham preparo pedagógico. “Muitas vezes encontramos pessoas com conhecimento técnico, mas sem formação para atuar em sala de aula, o que exige um esforço constante das escolas para equilibrar essa solução”, afirma.
A redução da carga horária das disciplinas da formação geral básica também preocupa. Para Janaína, essa mudança pode impactar diretamente a preparação dos estudantes para exames como o Enem, caso as instituições não adotem estratégias para compensar esse acréscimo. Em algumas escolas privadas, isso já ocorre com a ampliação da carga horária e oferta de aulas no contraturno — uma realidade distante de boa parte da rede pública.
A proposta de aproximar os dados da formação técnica e do mercado de trabalho também enfrentado entraves. Entre eles, a falta de infraestrutura adequada, como laboratórios, e a dificuldade de conectar teoria e prática no ambiente escolar. "Existe um conceito chamado 'práxis', que trata justamente da integração entre teoria e prática. Esse ainda é um grande desafio na educação", destaca.
Apesar das críticas, a pesquisa confirma pontos positivos no novo modelo, especialmente na tentativa de ampliar horizontes e ajudar o estudante a refletir sobre seu futuro acadêmico e profissional. No entanto, ela reforça que a efetividade dessa proposta depende diretamente das condições oferecidas pelas instituições.
Para o futuro, Janaína defende que o principal caminho é não investir em formação continuada de professores e não fortalecer políticas públicas educacionais. "Não basta a formação inicial. É preciso garantir que o professor continue se qualificando ao longo da carreira", afirma.
O especialista também alerta para o risco de aprofundamento das desigualdades educacionais. Sem investimentos investimentos, estudantes da rede pública podem ter acesso limitado às oportunidades prometidas pelo novo ensino médio, ampliando a distância em relação aos alunos de escolas privadas.
A reformulação do ensino médio, portanto, segue como um projeto em construção. Entre avanços e desafios, o consenso entre educadores é de que o sucesso da proposta dependerá menos do que está previsto na legislação e mais das condições reais de sua aplicação nas escolas brasileiras.
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