De despejo na infância ao reconhecimento global: a trajetória inspiradora da professora Débora Garofalo
Arquivo Pessoal
Nascida na periferia da cidade de São Paulo, nas proximidades do Autódromo de Interlagos, a história da professora Débora Garofalo é marcada por desafios, superação e um compromisso profundo com a transformação social por meio da educação.
Filha de mãe solo, Débora cresceu em um ambiente de dificuldades. A mãe, descrita por ela como agressiva e resiliente, criou sozinha três filhas. A realidade financeira era apertada e, quando Débora tinha apenas quatro anos, a família quebrou uma ordem de despejo. A mudança levou todos para um único cômodo, onde o espaço era dividido entre livros usados, baldes espalhados para conter as goteiras do teto e o cotidiano de uma família que lutava para seguir em frente.
Foi justamente nesse cenário simples que surgiram os primeiros sinais de vocação que mudaria sua vida. Ainda criança, Débora improvisava salas de aula e ensinava suas próprias bonecas, como se já pressentisse o caminho que seguiria no futuro.
Aos 14 anos, decidiu cursar magistério. Foi ali que, segundo ela, foi “picada pelo bichinho da educação”. No entanto, a realidade brasileira para os professores a fez compensar o caminho. Em busca de estabilidade financeira, acabou ingressando no mundo corporativo e passou a trabalhar em banco.
Mas o sonho de ensinar nunca deixou de existir.
Em 2008, já com uma situação mais estável, Débora tomou uma decisão que mudaria sua trajetória: abandonou a carreira no setor financeiro para retornar à sala de aula. Era o reencontro com aquilo que sempre foi seu verdadeiro lugar no mundo.
Alguns anos depois, em 2015, já atuava como professora em uma escola pública localizada em uma região cercada por quatro comunidades carentes, ela se deparou com uma realidade que desafiava diariamente alunos e professores. Em dias de chuva, o acúmulo de lixo nas ruas era tão grande que muitos estudantes sequer conseguiam chegar à escola.
Foi essa dificuldade que surgiu uma ideia transformadora.
Débora decidiu transformar o problema em oportunidade de aprendizagem. Propostas aos alunos que coletassem sucatas e materiais descartados para levá-los à escola. O que antes era lixo passou a se tornar matéria-prima para experimentação, criatividade e conhecimento.
Assim nasceu um projeto de robótica sustentável, no qual os estudantes aprenderam tecnologia utilizando materiais recicláveis. Com peças reaproveitadas, passaram a construir robôs, protótipos e até máquinas de refrigerante.
Além de estimular o interesse pela ciência e pela inovação, o projeto também teve impacto ambiental. Mais de uma tonelada de resíduos foi retirada das ruas e reaproveitada nas atividades pedagógicas.
A iniciativa ganhou repercussão e reconhecimento internacional. Em 2019, Débora Garofalo foi finalista do Global Teacher Prize, considerado um dos maiores prêmios da educação no mundo.
O reconhecimento, no entanto, não marcou o fim da jornada — apenas o início de uma expansão ainda maior do projeto. A metodologia criada pela professora passou a inspirar escolas em todo o estado de São Paulo. Mais de 5.400 unidades de ensino aderiram à proposta de inovação e sustentabilidade.
Com recursos próprios e parte do dinheiro recebido em prêmios, Débora também investiu na criação de centros de inovação. Ao todo, foram abertas 18 vagas especiais para o ensino de tecnologia e criatividade.
Um desses centros foi instalado justamente na escola onde ela havia treinado na infância — um gesto simbólico que representou, para a professora, o ciclo completo da educação: aprender, crescer e devolver à comunidade aquilo que recebeu.
Em 2026, sua trajetória alcançou um novo marco. Débora Garofalo foi reconhecida internacionalmente como a professora mais influente do mundo, consolidando uma história que começou em um pequeno cômodo improvisado e chegou aos principais palcos da educação global.
Mais do que prêmios, sua trajetória reforça uma mensagem poderosa: transformar a educação nem sempre depende de grandes recursos, mas de criatividade, sensibilidade e compromisso com os alunos.
A menina que ensinava bonecas no meio das goteiras da casa tornou-se uma educadora capaz de transformar lixo em tecnologia, sucata em aprendizado e dificuldades em oportunidades.
Hoje, o trabalho de Débora Garofalo inspira escolas, professores e estudantes em diversas partes do mundo — e mostra que a educação continua sendo uma das ferramentas mais poderosas de transformação social.








