Epidemia da insônia: estudos alertam para os impactos da privação de sono na saúde mental e no ganho de peso
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Considerada uma doença crônica não comunicável pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a síndrome do sono insuficiente atinge uma parcela alarmante da população. No Brasil, o cenário reflete uma tendência global de deterioração da qualidade do descanso, impulsionada pelo estilo de vida moderno, com impactos severos no desenvolvimento cognitivo, na saúde mental e no controle do peso.
De acordo com a mais recente pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do Ministério da Saúde, 20% dos brasileiros adultos dormem menos de seis horas por noite, enquanto 31,7% relatam sintomas de insônia. Os números expõem um problema de saúde pública que custa bilhões em perda de produtividade e sobrecarrega o sistema de saúde com doenças associadas.
Entre os jovens, a situação apresenta contornos ainda mais críticos. Um estudo publicado na revista científica JAMA revelou que 77% dos adolescentes dormem sete horas ou menos por noite — um salto em relação aos 69% do levantamento anterior. Destes, um em cada quatro dorme cinco horas ou menos. No Brasil, dados da Fiocruz corroboram a estatística, indicando que metade dos adolescentes não atinge a janela recomendada de oito a dez horas de descanso.
Especialistas apontam que, durante a puberdade, há um atraso natural no ritmo circadiano. No entanto, a exigência de horários matinais para estudo e o uso excessivo de telas impedem a reposição do sono. Como o cérebro nesta fase está em reconstrução, a perda do sono profundo (fase REM) prejudica a limpeza de toxinas cerebrais, o processamento de memórias e a regulação emocional. Como consequência, observa-se uma maior predisposição a sintomas depressivos, irritabilidade, falta de foco e uso de substâncias como álcool e cigarro como forma de "automedicação".
A vulnerabilidade feminina
O recorte de gênero dos estudos demonstra que as mulheres são mais suscetíveis à insônia devido a uma combinação de fatores biológicos e sociais. Segundo a médica Andrea Toscanini, do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, as alterações hormonais da menopausa aumentam a irritabilidade e a incidência de distúrbios do sono. Nesta fase, o risco de a mulher desenvolver apneia do sono se iguala ao do homem.
No aspecto social, a jornada dupla — que acumula trabalho fora de casa e responsabilidades domésticas —, frequentemente associada a uma renda menor, gera altos níveis de estresse. Esse cenário favorece a chamada "roda de pensamentos pré-sono", dificultando o relaxamento necessário para iniciar o descanso.
Relação com a obesidade
As consequências do sono encurtado estendem-se diretamente ao metabolismo. Um artigo revisado pela Universidade de Harvard apontou diversas evidências ligando a privação de sono ao risco de obesidade, doença que teve um salto de 72% no Brasil nos últimos 13 anos, segundo a Associação Brasileira para o Estudo de Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
O impacto começa na infância: crianças de três anos que dormem menos de 10 horas e meia por noite têm 45% mais chances de se tornarem obesas até os sete anos. Em adultos, uma pesquisa acompanhou mulheres americanas ao longo de 16 anos e concluiu que as que dormiam cinco horas tinham 15% mais chance de desenvolver obesidade do que as que dormiam sete horas.
Do ponto de vista fisiológico, a privação de sono gera um desbalanço hormonal: há o aumento da grelina (hormônio que estimula o apetite) e a queda da leptina (hormônio da saciedade). Além disso, o tempo extra acordado aumenta as oportunidades de ingestão calórica, enquanto o cansaço excessivo durante o dia reduz drasticamente a disposição para a prática de atividades físicas, criando um ciclo prejudicial à saúde metabólica.









