Autonomia é caminho para a inclusão de pessoas com síndrome de Down, destaca especialista

Foto: Arquivo pessoal
  • Júnior Patente
  • Atualizado: 11/03/2026, 11:48h

A construção da autonomia e da independência na vida diária de pessoas com síndrome de Down é um dos pilares para a inclusão social e para o desenvolvimento pleno dessas pessoas. O tema ganha ainda mais destaque no período em que se celebra o Dia Mundial da Síndrome de Down, lembrado em 21 de março, data dedicada à conscientização e à valorização das pessoas com a condição genética também conhecida como Trissomia 21.

Segundo o educador e pesquisador Eduardo de Campos Garcia, PhD em psicanálise clínica e pós-doutor em educação e saúde na infância e adolescência, a autonomia deve ser compreendida como parte essencial da experiência humana. Há mais de três décadas estudando inclusão social e educação inclusiva, ele defende que o olhar sobre a síndrome de Down precisa ir além da visão exclusivamente clínica.

“Durante muito tempo as pessoas com síndrome de Down foram analisadas apenas pelo ponto de vista médico. Hoje precisamos ampliar esse olhar e entender essas pessoas como sujeitos sociais, com identidade, cultura e participação no mundo”, afirma o pesquisador.

Para ele, a autonomia está diretamente ligada ao respeito à individualidade e à subjetividade de cada pessoa. “Autonomia significa permitir que esse ser humano faça escolhas, experimente o mundo e construa sua própria identidade. É entender que cada pessoa tem preferências, desejos e formas próprias de viver e participar da sociedade”, explica.

Estímulo desde a infância

De acordo com Eduardo Garcia, o desenvolvimento da independência deve começar ainda na infância, por meio de estímulos simples nas atividades cotidianas. Alimentação, higiene, organização e pequenas responsabilidades domésticas podem contribuir significativamente para o desenvolvimento das habilidades.

“O diagnóstico clínico serve para orientar cuidados com a saúde e o desenvolvimento, mas não pode definir toda a existência de uma pessoa. Ele deve ser um complemento para que o ambiente seja preparado de forma adequada”, destaca.

Entre as atividades que ajudam no desenvolvimento da autonomia estão exercícios que estimulam coordenação motora e interação com o ambiente. Brincadeiras com bolas de diferentes tamanhos, atividades com lápis ou canetas mais grossas, subir e descer escadas com supervisão e jogos que estimulem o movimento são exemplos citados pelo especialista.

No entanto, ele alerta que cada criança deve ser observada individualmente. “Toda orientação precisa considerar o diagnóstico clínico e as condições de saúde de cada pessoa. O ambiente precisa ser adaptado de acordo com as necessidades de cada indivíduo”, afirma.

Barreiras ainda persistem

Apesar dos avanços nas discussões sobre inclusão, o especialista afirma que ainda existem obstáculos importantes para a independência das pessoas com síndrome de Down. Entre eles estão o preconceito, a desinformação e dificuldades de acesso à educação inclusiva.

“Uma das maiores barreiras ainda é o preconceito historicamente construído. Durante muito tempo, discursos pseudocientíficos classificaram essas pessoas como incapazes ou inferiores. Romper com essa visão é fundamental para que a inclusão aconteça de fato”, ressalta.

Segundo ele, muitas instituições de ensino ainda enfrentam dificuldades para implementar práticas verdadeiramente inclusivas. “A educação inclusiva precisa fazer parte do planejamento pedagógico da escola. A diversidade humana deve ser entendida como parte natural da sociedade”, afirma.

O papel das famílias

Outro ponto destacado pelo pesquisador é a importância do equilíbrio nas decisões familiares. Ele alerta que, em muitos casos, a busca intensa por terapias pode acabar limitando as experiências sociais e afetivas das crianças.

“Tratamentos e terapias são importantes, mas a vida não pode se resumir a ambientes clínicos. A criança precisa brincar, viajar, ir ao teatro, ouvir música, conviver com outras pessoas. Essas experiências também fazem parte do desenvolvimento humano”, explica.

Para ele, a superproteção também pode se tornar um obstáculo para a construção da autonomia. “Quando a família faz tudo pela pessoa, ela acaba impedindo que ela experimente o mundo. Cair, errar e tentar novamente fazem parte do aprendizado de qualquer ser humano”, afirma.

Autonomia possível na vida adulta

O especialista também destaca que, quando estimuladas adequadamente, pessoas com síndrome de Down podem alcançar diferentes níveis de independência na vida adulta, inclusive no mercado de trabalho e na vida acadêmica.

“Existem pessoas com síndrome de Down formadas no ensino superior, atuando no comércio, em escritórios e em diversas áreas profissionais. Isso mostra que a autonomia é possível quando há estímulo, oportunidade e respeito à individualidade”, afirma.

Para ele, o principal passo é reconhecer o potencial dessas pessoas. “É preciso enxergar o ser humano antes do diagnóstico. Cada pessoa tem sua singularidade e pode desenvolver habilidades importantes para a vida em sociedade”, conclui.

Confira a entrevista concedida ao programa INCLUSÃO EM FOCO

Fonte: Portal Incluir

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