Edson Bindilatti: a força da resiliência que levou o Brasil ao melhor resultado da história no gelo
Se existe um nome que se confunde com a trajetória do bobsled brasileiro, esse nome é Edson Bindilatti. Da estreia olímpica em 2002 até a histórica campanha nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, o piloto se tornou símbolo de persistência, liderança e amor incondicional ao esporte.
Em Milão 2026, o Brasil alcançou a 19ª colocação — o melhor resultado da história do bobsled nacional — consolidando uma evolução que começou lá atrás, quando tudo ainda era aprendizado e improviso. “A gente começou do zero. O trenó ia para um lado, a gente para o outro”, relembra Bindilatti, com a franqueza de quem viveu cada etapa dessa transformação.
A trajetória e os bastidores dessa evolução foram detalhados pelo atleta em entrevista ao jornalista Júnior Patente, no programa Giro Esportivo, onde ele fez um balanço emocionado sobre as mais de duas décadas dedicadas à modalidade.
De Salt Lake City ao protagonismo
A primeira participação olímpica do Brasil no bobsled foi nos Jogos Olímpicos de Inverno de Salt Lake City 2002. Naquele momento, já havia a sensação de feito histórico: era a melhor qualificação do país em Jogos de Inverno até então. Mas a caminhada estava apenas começando.
Em 2006, Edson assumiu o posto de piloto. Vieram desafios administrativos, dificuldades financeiras e até o afastamento temporário do circuito internacional. Em 2013, porém, o projeto foi reestruturado, e o Brasil voltou mais organizado e ambicioso.
Nos anos seguintes, a equipe passou por uma revolução técnica com treinadoras britânicas, acelerando em dois ou três anos uma evolução que normalmente levaria uma década. O Brasil conquistou títulos na Copa América, pódio em Campeonato Mundial de Largada e começou a entender, com profundidade, como extrair desempenho do trenó — da regulagem das lâminas à aerodinâmica.
Superação em meio às limitações
Nos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang 2018, a equipe mostrou potencial para um grande resultado, mas esbarrou na limitação de material. “Tínhamos uma lâmina para treinar e competir. Não dava para testar”, explica Bindilatti. A diferença de equipamento pesou.
Em Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022, apesar das restrições impostas pela pandemia — que impediram o Brasil de competir internacionalmente por um período — veio a primeira final olímpica da história do país na modalidade. O 20º lugar já sinalizava um novo patamar.
Milão 2026 confirmou essa curva ascendente. Segunda final olímpica consecutiva e 19ª posição geral. Um resultado que não representa apenas um número, mas a consolidação de um projeto que sobreviveu à escassez de recursos e à força cambial desfavorável — afinal, o bobsled é conhecido como a “Fórmula 1 do gelo”, com trenós que podem custar até 100 mil euros.
A obsessão pelos detalhes
Se o Brasil evoluiu coletivamente, Bindilatti também travou uma batalha pessoal contra o cronômetro. Após anunciar aposentadoria, voltou ao esporte decidido a extrair cada milésimo possível.
Investiu em estudos de aerodinâmica, aprimorou o polimento das lâminas com apoio técnico especializado, desenvolveu capacete mais eficiente e mergulhou na preparação mental. “Dez segundos podem separar uma grande colocação”, afirma.
O trabalho psicológico também foi determinante. Concentração, foco e controle emocional passaram a ser treinados com a mesma intensidade das largadas explosivas.
O maior desafio: investimento
Ao longo de mais de duas décadas, o obstáculo mais constante foi financeiro. Em um país tropical, esportes de inverno lutam por visibilidade e patrocínio. A verba pública é limitada e precisa ser dividida entre diversas modalidades.
Mesmo assim, a equipe resistiu. Bindilatti foi além das pistas: ajudou a reestruturar a confederação em um momento crítico, buscou patrocinadores — enfrentando incontáveis negativas — e manteve viva a modalidade quando ela corria risco de desaparecer.
“Se eu abandonasse, o esporte acabaria”, resume.
Legado que vai além do gelo
Com seis participações olímpicas e uma trajetória iniciada ainda em 2000, Edson Bindilatti ajudou a colocar o Brasil no mapa do bobsled mundial. Mais do que resultados, deixou um legado de mentalidade: acreditar que é possível competir com potências centenárias mesmo tendo iniciado a jornada apenas em 2002.
Hoje, o Brasil já encurta distâncias para os grandes times. E, segundo o próprio piloto, o próximo passo depende de investimento e de uma mudança cultural voltada à alta performance.
Milão 2026 não foi o ponto final. Foi a prova de que o impossível pode ser apenas uma questão de tempo, preparo e insistência.
Edson Bindilatti não apenas pilotou um trenó. Ele conduziu um sonho — e colocou o Brasil, definitivamente, na pista da história.
Confira a entrevista convecida ao Giro Esportivo









