Paulo Dagomé lança ’’A Poética do Abismo’’ em Vitória da Conquista nesta quinta (5)

Paulo Dagomé lança ’’A Poética do Abismo’’ em Vitória da Conquista nesta quinta (5)

Morador de Brasília há mais de três décadas, o poeta e compositor retorna à terra natal para lançar obra que transita entre o manifesto lírico e a denúncia social; evento acontece no Sebo O Livreiro. Foto: Ane Xavier

  • Ane Xavier
  • Atualizado: 05/02/2026, 03:17h

Sair do sertão, desbravar o concreto do Planalto Central e, anos depois, voltar para casa com a bagagem repleta de versos e vivências. Esse é o arco narrativo que define a trajetória de Paulo Dagomé, poeta, compositor e ativista cultural natural de Vitória da Conquista. Após mais de 30 anos vivendo no Distrito Federal, ele retorna à sua terra natal para o lançamento de seu livro, A Poética do Abismo. O evento de autógrafos e bate-papo acontece nesta quinta-feira (5), a partir das 18h, no Sebo O Livreiro.

Dagomé foi o convidado do programa Mega Conversa, apresentado por Ane Xavier, onde compartilhou detalhes sobre sua vida dupla em Brasília: lá, ele divide seu tempo entre a profissão de vigilante noturno e a vocação de "vigilante da cultura", atuando como conselheiro regional e fundador do movimento Supernova.

Para Paulo, estar em Conquista não é apenas uma visita, mas o fechamento de um ciclo e uma preparação para um retorno definitivo no futuro. Embora se considere um cidadão brasiliense ambientado, ele reforça que os alicerces de sua existência permanecem no Sudoeste baiano. "Vitória da Conquista é um polo de sabedoria ancestral. Eu visito e revisito o Alto da Catingueira constantemente. Elomar Figueira, Xangai e Glauber Rocha são referências que me acompanham como fantasmas, dialogando o tempo todo nos meus ombros", revelou o poeta.

Essa mistura entre o frio do Planalto da Conquista e a seca de Brasília moldou sua estética. Dagomé relembra com carinho o perfeccionismo das fachadas das casas conquistenses — um traço herdado de seu pai, que pintava a frente da casa religiosamente no São João e no Natal — e afirma que leva esse cuidado estético para sua literatura.

Uma das facetas da biografia de Dagomé é a influência de seu ofício na sua arte. Trabalhando como vigilante noturno, ele utiliza o silêncio da madrugada e a observação solitária como combustível criativo. "Para mim, essa função tem um aspecto de profecia, de estar na 'torre de vigia' e olhar as coisas que acontecem quando todos dormem. É uma vigília pela sociedade, pela ancestralidade", explicou.

Foi dessa necessidade de ser ouvido que nasceu o Movimento Supernova. Inicialmente frustrado por escrever e não ter onde publicar, Paulo e amigos começaram a organizar saraus em pizzarias de São Sebastião, cidade satélite onde vive. O que começou de forma precária, com caixas de som improvisadas, tornou-se um fenômeno cultural que deu voz à periferia, transformando a palavra em ferramenta de resistência e, como ele prefere citar a poeta Nady Pimenta, de "existência".

A obra que será lançada nesta quinta-feira (5), financiada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), carrega um título forte que surgiu quase por acaso. Originalmente pensado para se chamar "Âmago", o livro foi rebatizado após uma entrevista com o jornalista José Rezende Júnior, que notou a recorrência da palavra "abismo" nos textos de Paulo.

O "abismo" da obra é múltiplo: é o abismo geográfico e econômico que separa a rica Brasília (Plano Piloto) da periferia (São Sebastião), e é também o abismo existencial humano. "A questão é que a distância entre São Sebastião e o Plano Piloto é um abismo assoberbado de milhares de reais. E enquanto os playboyzinhos desfilam de carro novo pelos lagos e pelas asas, eu estou andando para trás", recitou Paulo durante a entrevista, demonstrando o tom de denúncia social do livro.

O autor também desabafou sobre o peso da representatividade em seu processo criativo. Segundo ele, ser um artista preto e periférico muitas vezes o "obriga" a falar sobre dor e luta, mesmo quando gostaria de escrever apenas sobre o amor. "Eu tenho que estar carregando todos os negros comigo. (...) Eu não gostaria de ter que fazer isso, mas faço quase que por obrigação", pontuou.

O lançamento promete ser um momento de celebração da palavra falada e escrita. A escolha do local, o Sebo O Livreiro, não foi acidental: Paulo se encantou com a estética e a relevância cultural do espaço gerido por Rai, vendo ali o cenário ideal para um sarau conquistense. O sebo O Livreiro fica na Travessa Zulmiro Nunes, próximo à Praça Barão do Rio Branco, no centro. A entrada do evento é gratuita.

Ouça o episódio completo abaixo. Disponível também no Spotify.

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