Paulo Dagomé lança ’’A Poética do Abismo’’ em Vitória da Conquista nesta quinta (5)
Morador de Brasília há mais de três décadas, o poeta e compositor retorna à terra natal para lançar obra que transita entre o manifesto lírico e a denúncia social; evento acontece no Sebo O Livreiro. Foto: Ane Xavier
Sair do sertão, desbravar o concreto do Planalto Central e, anos depois, voltar para casa com a bagagem repleta de versos e vivências. Esse é o arco narrativo que define a trajetória de Paulo Dagomé, poeta, compositor e ativista cultural natural de Vitória da Conquista. Após mais de 30 anos vivendo no Distrito Federal, ele retorna à sua terra natal para o lançamento de seu livro, A Poética do Abismo. O evento de autógrafos e bate-papo acontece nesta quinta-feira (5), a partir das 18h, no Sebo O Livreiro.
Dagomé foi o convidado do programa Mega Conversa, apresentado por Ane Xavier, onde compartilhou detalhes sobre sua vida dupla em Brasília: lá, ele divide seu tempo entre a profissão de vigilante noturno e a vocação de "vigilante da cultura", atuando como conselheiro regional e fundador do movimento Supernova.
Para Paulo, estar em Conquista não é apenas uma visita, mas o fechamento de um ciclo e uma preparação para um retorno definitivo no futuro. Embora se considere um cidadão brasiliense ambientado, ele reforça que os alicerces de sua existência permanecem no Sudoeste baiano. "Vitória da Conquista é um polo de sabedoria ancestral. Eu visito e revisito o Alto da Catingueira constantemente. Elomar Figueira, Xangai e Glauber Rocha são referências que me acompanham como fantasmas, dialogando o tempo todo nos meus ombros", revelou o poeta.
Essa mistura entre o frio do Planalto da Conquista e a seca de Brasília moldou sua estética. Dagomé relembra com carinho o perfeccionismo das fachadas das casas conquistenses — um traço herdado de seu pai, que pintava a frente da casa religiosamente no São João e no Natal — e afirma que leva esse cuidado estético para sua literatura.
Uma das facetas da biografia de Dagomé é a influência de seu ofício na sua arte. Trabalhando como vigilante noturno, ele utiliza o silêncio da madrugada e a observação solitária como combustível criativo. "Para mim, essa função tem um aspecto de profecia, de estar na 'torre de vigia' e olhar as coisas que acontecem quando todos dormem. É uma vigília pela sociedade, pela ancestralidade", explicou.
Foi dessa necessidade de ser ouvido que nasceu o Movimento Supernova. Inicialmente frustrado por escrever e não ter onde publicar, Paulo e amigos começaram a organizar saraus em pizzarias de São Sebastião, cidade satélite onde vive. O que começou de forma precária, com caixas de som improvisadas, tornou-se um fenômeno cultural que deu voz à periferia, transformando a palavra em ferramenta de resistência e, como ele prefere citar a poeta Nady Pimenta, de "existência".
A obra que será lançada nesta quinta-feira (5), financiada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), carrega um título forte que surgiu quase por acaso. Originalmente pensado para se chamar "Âmago", o livro foi rebatizado após uma entrevista com o jornalista José Rezende Júnior, que notou a recorrência da palavra "abismo" nos textos de Paulo.
O "abismo" da obra é múltiplo: é o abismo geográfico e econômico que separa a rica Brasília (Plano Piloto) da periferia (São Sebastião), e é também o abismo existencial humano. "A questão é que a distância entre São Sebastião e o Plano Piloto é um abismo assoberbado de milhares de reais. E enquanto os playboyzinhos desfilam de carro novo pelos lagos e pelas asas, eu estou andando para trás", recitou Paulo durante a entrevista, demonstrando o tom de denúncia social do livro.
O autor também desabafou sobre o peso da representatividade em seu processo criativo. Segundo ele, ser um artista preto e periférico muitas vezes o "obriga" a falar sobre dor e luta, mesmo quando gostaria de escrever apenas sobre o amor. "Eu tenho que estar carregando todos os negros comigo. (...) Eu não gostaria de ter que fazer isso, mas faço quase que por obrigação", pontuou.
O lançamento promete ser um momento de celebração da palavra falada e escrita. A escolha do local, o Sebo O Livreiro, não foi acidental: Paulo se encantou com a estética e a relevância cultural do espaço gerido por Rai, vendo ali o cenário ideal para um sarau conquistense. O sebo O Livreiro fica na Travessa Zulmiro Nunes, próximo à Praça Barão do Rio Branco, no centro. A entrada do evento é gratuita.
Ouça o episódio completo abaixo. Disponível também no Spotify.









