Da dor ao protagonismo: a trajetória de Maju Araújo e a força de uma mãe que transformou inclusão em legado
Medo, insegurança e muitas dúvidas marcaram o início da caminhada de Adriana de Araújo ao receber o diagnóstico de que sua filha, Maria Júlia — a Maju — tinha trissomia do cromossomo 21, a síndrome de Down. Mas foi naquele momento decisivo que Adriana fez uma escolha de que mudaria não apenas a história da família, como também o olhar da sociedade sobre a deficiência: a síndrome não estaria acima da Maju. Ela seria protagonista da própria vida.
Hoje, aos 22 anos, Maju Araújo é modelo internacional, influenciadora e referência de inclusão. Já desfilou nas grandes passarelas do Brasil e do mundo, como Londres e Milão, e se tornou símbolo de autonomia, potência e representatividade para milhares de famílias. Uma trajetória construída com estímulo, respeito, oportunidades e, sobretudo, coragem para enfrentar o preconceito.
Segundo Adriana, um dos momentos mais dolorosos dessa jornada aconteceu ainda na primeira infância da filha. O ambiente que deveria acolher e incluir foi o primeiro a excluir. "Ali eu comecei a enxergar o preconceito velado. É muito triste quando a sociedade fecha portas justamente onde deveria existir pertencimento", relembra. A exclusão precoce escancarou a necessidade de lutar por direitos e por espaços que historicamente eram negados às pessoas com deficiência.
Com a visibilidade conquistada por Maju, Adriana percebe mudanças importantes. Famílias mais esperançosas, empresas revendo padrões e uma sociedade sendo provocadas a uma reflexão sobre o capacitismo, muitas vezes sustentado pela falta de convivência. "Quando a Maju ocupa esses espaços, ela quebra bolhas. E quando quebra se bolhas, mexe-se em estruturas", afirma.
Essa transformação também se reflete em uma conquista histórica: a criação da Lei Maju de Araújo, no Rio de Janeiro. A legislação nasceu a partir de ataques virtuais sofridos por jovens nas redes sociais, justamente para exercer seu direito de existir, trabalhar e se comunicar. A dor virou ação. A ação virou lei. Hoje, a Lei Maju de Araújo atua na defesa dos direitos das pessoas com deficiência nas plataformas digitais, combatendo o discurso de ódio e garantindo mais proteção e dignidade.
A ascensão de Maju no mundo da moda internacional também desenvolveu um exercício difícil para qualquer mãe: abrir a mão da superproteção. "Eu preciso deixar a Maju voar. Foi um dos maiores desafios da nossa história, mas também um dos mais lindos. Ali, nós marcamos a história e mostramos que o lugar de pessoa com síndrome de Down é onde ela quiser estar", destaca Adriana.
Para ela, o maior equívoco da sociedade é achar que as pessoas com T21 precisam ser extraordinárias para serem aceitas. "Elas não precisam ser extraordinárias, precisam ser protagonistas da própria vida. Quando se entende isso, se enxerga a potência que existe nelas", pontua.
No dia a dia, o orgulho de Adriana se renova nos gestos simples. A sensibilidade de Maju, a capacidade de perceber o outro e de se fazer emocionalmente, revelam quem ela é como ser humano. "Existe um pensamento muito preconceituoso de que pessoas com síndrome de Down são todos iguais. Não são. Cada uma tem sua identidade, sua personalidade. A Maju é acolhedora, sensível e extremamente humana", diz.
Ao deixar uma mensagem para outras mães que estão iniciando uma jornada semelhante, Adriana é direta e firme: diagnóstico não define destino. Ela lembra que ouviu muitos profissionais que a filha não seria capaz, mas decidiu acreditar nos sinais, respeitar o tempo e a identidade de Maju e lutar para que ela vivesse em ambientes onde se sentisse feliz e pertencente. “Sozinhos são mais difíceis, mas quando a família caminha junto, direcionando e respeitando as escolhas, o desenvolvimento acontece”, afirma.
A história de Maju Araújo não se transformou apenas na vida de um jovem, mas também na de toda a família, que passou a ocupar espaços mais alinhados com propósito, felicidade e sentido. Uma prova viva de que inclusão não é favor, é direito. E que quando oportunidades são oferecidas, o potencial floresce.









