Entre cestas e lições: O basquete de Germínio Vieira e o resgate da alma esportiva de Conquista

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 30/01/2026, 11:43h

O Vitória da Conquista já foi o palco onde gigantes do basquete nacional, como Oscar Schmidt e Paula, desfilaram seu talento. Mas, para além dos grandes nomes que passaram pelo Ginásio de Esportes, existe uma história construída no asfalto frio, nas quadras sem cobertura e, principalmente, no coração de quem viu o esporte nascer por aqui. Nesta sexta-feira (30), o programa Giro Esportivo recebeu uma dessas lendas vivas: Germínio Vieira , ou simplesmente “Geo” , atleta e treinador que é a memória pulsante do basquete conquistense.

Em uma conversa que flutuou entre o saudosismo e a urgência de um despertar, Geo nos levou de volta a 1976. Naquela época, o esporte não era sobre infraestrutura de ponta, mas sobre o "querer fazer". No Colégio Diocesano, o professor Dalmacio não tinha tabelas, mas tinha a vontade. O basquete, então, ganhou vida no Centro Integrado Navarro de Brito, sob o olhar de figuras como Luciano "Paredão" e José Maria Areias.

Ouro na Mão, Histórias no Coração

Germínio não apenas viveu o basquete; ele o carregou para fora das fronteiras baianas. Foi campeão brasileiro com a seleção baiana e as gerações de nosso ouro surgiram sob seus cuidados. Quem não se lembra de Luciana Moura , que aos 16 anos encantou o país como a atleta mais jovem em um campeonato juvenil? Gel lembra com carinho a partida onde ela anotou mais de 100 pontos — um registro físico de uma era em que a Conquista respirava bola ao alto.

“A gente saiu do bairro Petrópolis e atravessou a cidade a pé para treinar” , relembrou, desenhando um cenário de sacrifício que hoje parece impensável. "Não tinha internet, a gente trocava cartas para manter as amizades. E que amizades!"

O "Muro das Lamentações": Um Desabafo Necessário

A voz de Gel, geralmente relacionada com riso e descontração, ganha um tom de gravidade ao falar do presente. O ex-atleta lamenta o estado do Ginásio de Esportes, que viu ser construído do zero, em um terreno de brejo, e que hoje chama de "muro das lamentações".

"Conquista tem 25 ginásios, mas onde está o esporte? Eu tenho uma dor no coração. Ver minha filha de 1,84m crescer sem ter o privilégio de jogar os Jogos Estudantis, que estão extintos há 25 anos, é duro."

O desabafo de Germínio é um convite à reflexão: por que, com mais recursos físicos do que temos nos anos 80, o brilho nos olhos da juventude parece estar se apagando atrás das telas da juventude?

A Pedagogia do Afeto

Como treinador, Geo mantém a essência que aprendeu com mestres como José Maria Areias: o rigor temperado com amor. Nas suas aulas, ele brinca com a própria imagem, assume seus erros diante dos alunos e cria um "contrato de confiança". Para ele, o esporte é uma ferramenta definitiva contra a ansiedade e os problemas emocionais que assolam as crianças de hoje.

"No esporte, eles esquecem do celular. Ali existe troca, existe o olho no olho" , afirma. Geo é o exemplo vivo de que o esporte não forma apenas atletas, mas cidadãos resilientes. Aos "dinossauros" que ainda batem bola acima dos 50, 60 e 70 anos, ele dedica sua admiração: são a prova de que cada dólar investido no esporte econômico três na saúde.

Um Chamado à Cidade

A entrevista terminou com um eco de esperança e um desafio às autoridades e à sociedade civil. Vitória da Conquista não pode deixar sua história enterrada em súmulas amareladas ou ginásios sucateados. O basquete de Geo, de Luciana e de tantos outros é um patrimônio que precisa de novos herdeiros.

O esporte é alegria, e a alegria é o motor que nos incentiva a continuar. Que o apelo de Germínio Vieira não seja apenas uma voz no rádio, mas o primeiro passo para que o barulho da bola quicando volte a ser a trilha sonora das tardes de Conquista.

Matéria de Júnior Patente

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