Dossiê da ANTRA alerta: queda nos registros de homicídios de pessoas trans reflete subnotificação, não segurança
Brasil segue como o país que mais mata a população trans no mundo pelo 18º ano consecutivo; dados foram divulgados no Dia Nacional da Visibilidade Trans (29). Foto: Reprodução
Às vésperas do Dia Nacional da Visibilidade Trans, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) lançou o Dossiê 2026, mapeando a violência contra essa população no ano anterior. O levantamento aponta 80 assassinatos em 2025, uma queda de 34% em relação aos 122 casos do ano anterior. No entanto, a entidade alerta que o número deve ser lido com cautela: a redução está associada ao apagamento institucional e à subnotificação, e não a melhorias estruturais na segurança.
“Menos registros não significam menos violência. Pelo contrário: há uma intensa movimentação que pretende inclusive institucionalizar a transfobia”, afirmou Bruna Benevides, presidente da ANTRA. O Brasil permanece, pelo 18º ano seguido, no topo do ranking mundial de assassinatos de pessoas trans.
Perfil das Vítimas e Interiorização
O relatório traça um perfil claro da vulnerabilidade social:
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Gênero: 97% das vítimas foram travestis e mulheres trans.
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Cor e Classe: A maioria era negra, pobre e tinha menos de 35 anos.
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Localização: Houve uma interiorização da violência, com 67,5% dos crimes ocorrendo em cidades do interior, onde as redes de proteção são mais escassas.
O dossiê também destaca o crescimento do ódio nas redes sociais e a disputa política através da linguagem. Dados da pesquisa Explana 2.0 mostram que 93,9% dos entrevistados já tiveram contato com conteúdo transfóbico online.
O documento dialoga com a obra do pesquisador Danillo Silva sobre "ofensivas antigênero", apontando que termos como "ideologia de gênero" e "defesa da família" são usados politicamente para barrar o avanço da cidadania trans e naturalizar a exclusão, infiltrando-se em legislações e políticas públicas.
A ANTRA reforça que a visibilidade real exige ações concretas do Estado, como a regulamentação das plataformas digitais; cotas em universidades e concursos; reconhecimento oficial dos dados produzidos pela sociedade civil e a garantia do uso do nome social em todos os serviços.









