Novo mínimo de R$ 1.621: entre a valorização histórica e a distância dos R$ 7 mil ideais do DIEESE

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 03/01/2026, 08:15h

Entrou em vigor nesta quinta-feira o novo salário mínimo brasileiro, fixado em R$ 1.621. O reajuste, oficializado via decreto presidencial no apagamento das luzes de 2025, representa um aumento nominal de 6,79% em relação aos R$ 1.518 vigentes até o ano passado. Do ponto de vista macroeconômico, a cifra reflete a aplicação da atual política de valorização, que combina a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores, respeitando as dificuldades do arcabouço fiscal que limitam o ganho real a um teto de 2,5%. Embora o governo tenha planejado inicialmente um valor aprimorado na Lei de Diretrizes Orçamentárias, a desaceleração da inflação no último trimestre de 2025 ajustou o montante final para os atuais R$ 1,621, garantindo um incremento injetado na economia estimada pelo DIEESE em mais de R$ 80 bilhões.

Ao analisarmos o retrospecto da última década, observamos um gráfico pendular que revela as diferentes prioridades das gestões econômicas no país. Em 2016, o piso nacional era de R$ 880. Dez anos depois, o valor nominal quase dobrou, mas a trajetória não foi linear em termos de poder de compra. Entre 2019 e 2022, o Brasil atravessou um período de “estagnação real”, onde os reajustes limitaram-se a recompor a inflação passada, sem ganhos acima do custo de vida. Em alguns anos desse intervalo, o ajuste chegou a ficar abaixo do INPC, resultando em uma regressão técnica do poder aquisitivo. A retomada da política de valorização real a partir de 2023 começou a reverter esse quadro, buscando recuperar as perdas acumuladas durante a crise sanitária e o choque inflacionário global de 2021.

Comparativo de Poder de Compra (Salário Real vs. Necessidade)

  • Salário Atual (2026): R$ 1.621,00

  • Salário Mínimo Necessário (DIEESE): R$ 7.067,00

  • Déficit de Cobertura: 77% (O salário atual cobre menos de 1/4 do necessário)

Apesar do esforço fiscal para manter o aumento acima da inflação, o abismo entre o salário vigente e o custo de vida real permanece alarmante. Dados atualizados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) apontam que o salário mínimo "ideal" para sustentar uma família de quatro pessoas — cobrindo despesas com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência — deveria ser de aproximadamente R$ 7.067. Isso significa que o valor que passou a valer nesta quinta-feira cobre apenas cerca de 23% das necessidades básicas estipuladas pela Constituição Federal.

Essa disparidade evidencia que, embora o reajuste de 2026 represente um avanço numérico e um ganho real necessário para mais de 60 milhões de brasileiros (incluindo atrasados ​​e beneficiários do BPC), a estrutura econômica nacional ainda impõe desafios severos. O rendimento médio habitual do brasileiro continua fortemente corroído pelos preços dos alimentos e serviços essenciais, o que mantém a segurança alimentar no centro do debate econômico. Para o ano de 2026, a expectativa é que o controle inflacionário e a manutenção do emprego permitam que este novo piso salarial tenha uma sobrevida maior nas prateleiras dos supermercados do que nos anos anteriores, consolidando uma lenta, porém contínua, trajetória de recuperação da dignidade financeira do trabalhador.

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