“A psicomotricidade ajuda a organizar o corpo, a mente e as emoções”, diz professora Hegles Assis, especialista em educação inclusiva

Foto: Arquivo pessoal
O programa Inclusão em Foco, apresentado pelo radialista Júnior Patente e transmitido nas segundas e quartas semanas do mês, sempre às segundas-feiras, às 11 horas da manhã, na Mega Rádio, recebeu a professora Hegles Assis, especialista em educação inclusiva, psicomotricidade e natação, além de docente na UNIFTC. Durante a entrevista, Hegles falou sobre a importância da psicomotricidade no desenvolvimento de pessoas com deficiência, explicando como essa ciência contribui para a organização do corpo, da mente e das emoções, promovendo maior autonomia e inclusão.
Hegles Assis, professora e especialista em educação inclusiva. Foto: Arquivo Pessoal
Leia a entrevista completa abaixo.
Mega Rádio: Quais são os principais benefícios da psicomotricidade para o desenvolvimento cognitivo, emocional e motor das pessoas com deficiência?
Hegles Assis: A partir da própria palavra psicomotricidade, a gente já começa a ter um entendimento do que se trata. Através da psicomotricidade são desenvolvidas questões cognitivas, emocionais e motoras de qualquer indivíduo. Para a pessoa que tem deficiência, através dessa ciência, ela vai começar a entender o que fazer, como fazer e quando fazer. Então, ela vai ajustar o pensamento, a emoção e a questão motora, até conseguir realizar aquela tarefa que é destinada para ela. É como se fosse uma reorganização daquele corpo, né? Envolvendo a cabeça e o corpo. Então, ele se reorganiza, compreende aquela tarefa que foi solicitada, para conseguir realizar. Por muitas vezes, a pessoa que não tem deficiência realiza algum tipo de tarefa no modo automático, como a gente diz. E a pessoa com deficiência, geralmente, não tem essa habilidade de realizar com tanta destreza algo simples, que seria realizado de maneira automática. Então, a psicomotricidade vai ajudar justamente nisso: ajustar e organizar todas essas questões, para que seja possível realizar o movimento ou a tarefa.
Mega Rádio: Como a psicomotricidade pode ser adaptada para atender as necessidades específicas de pessoas com diferentes tipos de deficiência física?
Hegles Assis: Bom, a psicomotricidade pode ser para qualquer pessoa, né? Às vezes, a pessoa não tem deficiência, mas pode ter algum tipo de dificuldade—seja de aprendizagem ou motora—que não necessariamente será considerada uma deficiência. Por outro lado, as pessoas que têm algum tipo de deficiência também podem apresentar atrasos psicomotores. Então, é importante fazer uma avaliação antes de começar as intervenções, para entender quais são essas dificuldades que a criança ou o indivíduo, de forma geral, tem. Se a dificuldade está, por exemplo, na escrita, precisamos analisar se essa dificuldade está somente na escrita ou se há outros fatores que antecedem essa dificuldade. Normalmente, sim, há fatores anteriores. O produto final é a escrita, mas antes dela vêm atenção, tonicidade, equilíbrio, que são habilidades fundamentais. Então, antes de trabalhar a escrita em si, precisamos organizar aquilo que será necessário para que ela ocorra corretamente.
Mega Rádio: Qual o papel do psicomotricista na promoção da autonomia e da inclusão social de pessoas com deficiência?
Hegles Assis: O profissional psicomotricista, ou o especialista em psicomotricidade, tem um papel fundamental. Existem sete bases psicomotoras, que são avaliadas e trabalhadas no dia a dia da criança. A gente vai dar condições para que esse indivíduo—seja criança ou adulto—organize seu corpo, seu cognitivo e suas emoções, para conseguir realizar tarefas. Às vezes, pode ser uma tarefa simples, mas aquela pessoa não consegue realizar porque tem, por exemplo, uma tonicidade deficiente ou não sabe o momento exato de executar aquela atividade. Então, o papel do psicomotricista é justamente esse: dar condições para que o indivíduo entenda como, onde e quando fazer cada coisa, para que ele tenha respostas positivas.
Mega Rádio: Quais são os desafios mais comuns enfrentados no trabalho de psicomotricidade com pessoas com deficiência e como superá-los?
Hegles Assis: Bom, eu acredito que um dos maiores desafios é a falta de conhecimento das pessoas. A psicomotricidade é uma ciência embasada em estudos, mas muitas pessoas ainda confundem como executá-la corretamente. Muita gente acha que psicomotricidade é apenas circuito motor, e na realidade não é. O circuito motor é apenas um instrumento para se trabalhar a psicomotricidade. Hoje, estamos ganhando mais espaço justamente porque a ciência vem comprovando que a junção do trabalho cognitivo, emocional e motor gera resultados muito positivos, principalmente para pacientes com transtornos. Com a disseminação dessa ciência, as pessoas passam a buscar profissionais mais habilitados. Então, ao procurar esse serviço, é essencial saber se o profissional é capacitado, pós-graduado ou formado na área. Psicomotricidade não é apenas correr entre cones ou pular bambolê, vai muito além disso.
Mega Rádio: Agora, falando sobre natação, quais os principais benefícios da natação para o desenvolvimento físico, emocional e social de pessoas com deficiência?
Hegles Assis: A natação é um esporte completo. Trabalha força, condicionamento cardiorrespiratório, desenvolvimento motor, cognitivo e social. Além disso, a água em si proporciona um efeito muito significativo: relaxa, acalma e melhora a percepção sensorial, o que é muito importante, especialmente para crianças. Em alguns casos, quando há dor, essa dor também é reduzida, o que melhora a sensação de bem-estar.
Mega Rádio: Quais adaptações ou cuidados são necessários para que a natação seja inclusiva e segura para pessoas com deficiência?
Hegles Assis: A inclusão deve existir em todos os âmbitos, e na natação não é diferente. Porém, acredito que a participação dos pais e responsáveis seja fundamental para que a inclusão aconteça de forma real. Muitas crianças têm uma sensibilidade maior, podendo reagir com comportamentos impulsivos na água. Então, a presença dos responsáveis é essencial para garantir segurança e adaptação gradual.
Mega Rádio: Você poderia compartilhar um caso em que a natação teve um impacto significativo na vida de uma pessoa com deficiência?
Hegles Assis: Sim, ao longo dos quase 17 anos trabalhando com natação para crianças com deficiência, muitos casos me marcaram. Lembro de um garotinho que fez aulas comigo por quatro anos, de forma individual. Quando chegou a hora de ele ir para a turma, a mãe ficou muito apreensiva e chegou a chorar, preocupada com essa transição. Tempos depois, essa mesma mãe me enviou uma mensagem contando que o filho, agora com 10 ou 11 anos, conseguiu salvar uma criança que estava se afogando na piscina do condomínio. Isso mostra que o aprendizado realmente fica, independente da deficiência.